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Educação, Cultura e Comunicação

Saúde e Alegria recebe homenagem por trajetória na educomunicação amazônica

Divisor de seção

Reconhecimentos durante o XI Encontro Brasileiro de Educomunicação destacam quatro décadas de comunicação comunitária, educação popular e participação das populações amazônicas na produção de conhecimentos

O Projeto Saúde e Alegria (PSA) e o seu educomunicador Fábio Anderson Rodrigues Pena receberam homenagens nesta terça-feira (13), durante a programação do XI Encontro Brasileiro de Educomunicação, em Santarém, no oeste do Pará. O reconhecimento institucional ao PSA foi recebido por seus coordenadores, Eugênio Scannavino Neto, fundador da organização, e Caetano Scannavino, coordenador-geral. Fábio Pena, coordenador de Educomunicação, também recebeu a homenagem durante a sessão especial “Santarém Cidade Educom”. O reconhecimento destaca contribuições à comunicação comunitária e à educação na Amazônia paraense, em uma trajetória marcada pela participação das comunidades na produção e na circulação de conhecimentos.

Com o tema “As águas que nos conectam: Educomunicação, Territórios e Práticas Socioambientais”, o encontro reúne pesquisadores, professores, comunicadores e representantes de organizações sociais do Brasil e de outros países, com atividades até 15 de outubro. A programação promove o intercâmbio de experiências sobre as relações entre comunicação, educação, cultura e participação social, além de discutir como as práticas educomunicativas podem contribuir para enfrentar desafios socioambientais e fortalecer a presença das comunidades nos debates sobre seus territórios. A realização do evento em Santarém também coloca em evidência experiências desenvolvidas na Amazônia, onde a comunicação comunitária vem sendo utilizada em processos educativos e de mobilização social.

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A trajetória do Projeto Saúde e Alegria na educomunicação está relacionada às primeiras ações de educação em saúde desenvolvidas nas comunidades amazônicas. Eugênio Scannavino Neto, médico e fundador do PSA, recordou que, no início do trabalho, problemas como diarreia, anemia e verminoses estavam associados, entre outros fatores, à qualidade da água e às condições de higiene. A resposta a essas questões exigia mais do que atendimento médico e medicamentos: era necessário trabalhar com prevenção, tratamento da água, hábitos de higiene e disseminação de informações que pudessem ser incorporadas ao cotidiano das famílias. “Não era uma questão de médico ou remédio. Era uma questão de levar informações sobre higiene, prevenção, tratamento da água, lavar as mãos”, afirmou.

A partir dessa experiência, a comunicação passou a integrar as estratégias educativas do projeto, envolvendo jovens na produção de vinhetas, programas de rádio e radionovelas construídas com referências da própria cultura comunitária. A proposta era fazer com que os conteúdos circulassem por meio de linguagens conhecidas pelos moradores e que a informação não ficasse restrita aos profissionais ou às instituições responsáveis pelas ações. Ao participarem da produção, os jovens também se tornavam agentes de disseminação dos conhecimentos, compartilhando informações com outras pessoas e mobilizando suas comunidades. “Era a educação feita de maneira multilateral, construção multilateral do saber, adaptada àquela cultura e com disseminação horizontal, porque era um jovem ensinando para o outro”, explicou Eugênio.

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Essa abordagem relaciona educação e comunicação à capacidade de organização e participação das comunidades. Em vez de tratar os moradores apenas como receptores de campanhas e orientações, o trabalho busca criar condições para que expressem suas experiências, identifiquem questões prioritárias e participem da construção de respostas coletivas. Eugênio ressaltou que a comunicação contribuiu para ampliar o alcance da educação em saúde e, ao mesmo tempo, para fortalecer a expressão comunitária. “Educação e comunicação são ferramentas muito libertadoras para que as comunidades possam ser protagonistas do seu próprio futuro”.

Esse princípio está presente em diferentes iniciativas desenvolvidas pelo PSA, entre elas a Rede Mocoronga de Comunicação Popular, que incentiva crianças, jovens e moradores de comunidades amazônicas a produzir conteúdos sobre suas realidades, suas culturas e os desafios de seus territórios. A experiência parte do entendimento de que a comunicação também é um espaço de aprendizagem, no qual a produção de notícias, programas e outros materiais permite desenvolver habilidades, compartilhar conhecimentos e ampliar a participação social.

Durante sua fala no recebimento do certificado, Caetano Scannavino recordou sua chegada à Amazônia, em 1988. A intenção inicial era permanecer por seis meses para contribuir com a estrutura de comunicação da organização, mas o trabalho se transformou em uma trajetória de quase quatro décadas na região. Scannavino destacou o aprendizado construído nas relações com as populações locais e a importância de reconhecer os conhecimentos produzidos pelas comunidades, que não se limitam ao saber acadêmico ou à formação profissional. “Quando a gente chega em São Paulo, chega todo peitudo, salvador da pátria, acha que sabe tudo, e não sabe nada. Eu tive a maior aula de vida da minha vida com vocês”, afirmou.

Para o coordenador-geral, a convivência com as comunidades revelou formas de solidariedade, acolhimento e cooperação que passaram a orientar sua própria compreensão sobre a atuação na Amazônia. Ao recordar situações em que moradores compartilham o que têm para acolher alguém que chega ao território, Caetano destacou que esses conhecimentos e práticas sociais constituem parte importante da vida amazônica. A experiência também reforçou a necessidade de construir iniciativas em parceria com as populações locais, reconhecendo suas capacidades e evitando tratar a região apenas a partir de perspectivas externas. “A gente precisa exportar essa solidariedade, essa cooperação humanitária que eu conheci aqui no Tapajós”, disse.

Da Banda Azulai para o Projeto Saúde e Alegria 

A homenagem a Fábio Anderson Rodrigues Pena também está relacionada à história da comunicação comunitária no oeste do Pará. Nascido na região do Carariacá, ele começou a se interessar pelo rádio ainda na infância, quando integrava a banca Azulai e acompanhava a programação da Rádio Rural, um dos meios de comunicação que chegavam às comunidades. A aproximação com o Projeto Saúde e Alegria permitiu transformar esse interesse em experiência prática, por meio das atividades da Rede Mocoronga de Comunicação Popular, que incentivavam crianças e jovens a experimentar a produção radiofônica e desenvolver formas próprias de comunicação.

A trajetória prosseguiu quando Fábio se mudou para Santarém para cursar o ensino médio. Na cidade, continuou acompanhando iniciativas de comunicação educativa e se tornou o primeiro repórter de um projeto de educação pelo rádio que começava a ser desenvolvido na região, o Rádio pela Educação, desenvolvido na Rádio Rural com apoio do Unicef:  Posteriormente, deu continuidade ao trabalho no Saúde e Alegria, acompanhando a evolução das práticas e dos recursos utilizados na comunicação comunitária. Ao recordar esse percurso, destacou que a homenagem recebida representa uma história compartilhada por diferentes pessoas que participaram das experiências de comunicação e educação desenvolvidas na região ao longo dos anos.

“Essa homenagem é muito importante, porque reconhece uma trajetória que não é só minha, mas de uma geração”, afirmou Fábio. Para ele, as iniciativas socioeducativas desenvolvidas na Amazônia contribuíram para as reflexões que deram origem ao campo da educomunicação no país. O comunicador também ressaltou a participação do Projeto Saúde e Alegria nesse processo, desde as experiências práticas de comunicação comunitária até as discussões relacionadas à construção do conceito. “Nós participamos da própria elaboração, de alguma forma, desse próprio conceito”, disse.

Nesse percurso, o rádio teve papel importante por permitir que informações chegassem a localidades com acesso limitado a outros meios de comunicação e por abrir espaço para que moradores produzissem seus próprios conteúdos. A experiência acumulada também criou referências para a incorporação de outras linguagens e ferramentas, sem abandonar a participação comunitária como elemento central do processo educativo.

Intercâmbio de experiências e construção de políticas públicas

O XI Encontro Brasileiro de Educomunicação reúne experiências de diferentes regiões e abre espaço para discutir como as práticas desenvolvidas por organizações, escolas e comunidades podem contribuir para a formulação de políticas públicas. A programação conta com pesquisadores, educadores e profissionais que atuam na interface entre comunicação e educação, permitindo a troca de metodologias e a discussão sobre os desafios para ampliar essas práticas em diferentes contextos.

Lucineide Pinheiro, professora da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e integrante da coordenação local do evento, destacou a participação de profissionais e pesquisadores do Brasil e de outros países, incluindo representantes do Chile e da Colômbia. A realização do encontro em Santarém permite reunir experiências e promover um diálogo sobre a contribuição da educomunicação para a transformação da realidade. A presença de participantes de diferentes lugares também favorece o contato com práticas construídas a partir das especificidades culturais e sociais de cada território.

Maurício Virgulino, presidente interino da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom), ressaltou a importância de aproximar pesquisadores e profissionais das experiências desenvolvidas na Amazônia, muitas delas construídas há décadas e vinculadas às realidades das comunidades. O intercâmbio permite reconhecer práticas que nem sempre recebem a mesma visibilidade em outras regiões do país e compreender como elas podem contribuir para o desenvolvimento de novas iniciativas. “Quando você conflui essas pessoas e conflui esses saberes, nós temos um aprendizado coletivo e colaborativo, o que a educomunicação defende”, afirmou.

Maurício também apontou a necessidade de ampliar a presença da educomunicação nas políticas públicas municipais, estaduais e federais, além de fortalecer sua aplicação em escolas e organizações da sociedade civil. Entre os temas relacionados a esse debate estão o uso crítico das tecnologias, a prevenção à desinformação e a defesa do direito à comunicação, à saúde e à cultura. A proposta envolve desenvolver práticas participativas que ajudem as pessoas a interpretar informações, produzir conteúdos e compreender o papel dos meios de comunicação na vida social.

Estande apresenta produtos de arte-educação e estrutura de rádiocomunitária

Durante o XI Encontro Brasileiro de Educomunicação, o Projeto Saúde e Alegria mantém um estande na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), onde apresenta produtos de arte-educação desenvolvidos pela organização e uma estrutura de rádio comunitária. O espaço permite que participantes do evento conheçam materiais e recursos utilizados nas atividades educativas e nas experiências de comunicação popular desenvolvidas pelo PSA na Amazônia.

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A presença do estande também aproxima o público das metodologias que articulam comunicação, cultura e educação, mostrando como diferentes linguagens podem ser utilizadas para compartilhar conhecimentos e estimular a participação de crianças, jovens e adultos. A estrutura de rádio comunitária remete às experiências que marcaram a trajetória do projeto desde os primeiros trabalhos com jovens comunicadores, enquanto os produtos de arte-educação demonstram a diversidade de recursos empregados nas ações socioeducativas. A participação do PSA no evento tem apoio da Fundação Konrada Adenauer. 

O encontro segue até 15 de outubro, em Santarém, com atividades dedicadas à troca de experiências e à discussão sobre a contribuição da educomunicação para a educação, a participação social e as práticas socioambientais.

SERVIÇO À IMPRENSA

Evento: XI Encontro Brasileiro de Educomunicação

Tema: As águas que nos conectam: Educomunicação, Territórios e Práticas Socioambientais

Data: 13 a 15 de outubro de 2026

Participação e homenagem: Sessão especial “Santarém Cidade Educom”, em homenagem a Fábio Anderson Rodrigues Pena, Eugênio Scanavinno e Caetano Scanavinno

Data e horário da homenagem: 13 de outubro, das 9h às 11h

Local da homenagem: Casa da Cultura de Santarém (PA)

Local do encontro: Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Santarém (PA)

Programação e inscrições: https://www.even3.com.br/xi-encontro-brasileiro-de-educomunicacao-687436/

Conheça mais sobre a trajetória de Fábio Anderson Pena no PSA aqui:

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