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Infraestrutura comunitária

Tecnologias sociais desenhadas com os territórios para garantir direitos, autonomia e adaptação climática na Amazônia
Divisor de seção

Como garantir direitos nos territórios das águas

Na Amazônia, infraestrutura precisa partir da realidade dos territórios das águas. Rios, cheias, secas e longos deslocamentos moldam o acesso à água segura, saneamento, energia e conectividade, dimensões essenciais para saúde, dignidade, permanência, autonomia e bem-viver.

A precariedade da infraestrutura básica aprofunda desigualdades históricas e se agrava diante da crise climática. Secas extremas, cheias, isolamento fluvial e contaminação dos rios por mercúrio ampliam os riscos para comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas e tradicionais. No Ranking do Saneamento 2026, Santarém aparece na última posição entre os 100 maiores municípios do país, mas esse dado ainda não revela toda a escala do desafio no Tapajós, onde muitas comunidades estão fora dos centros urbanos e dependem de soluções adaptadas à vida nos rios.

A área de Infraestrutura Comunitária se constrói a partir da trajetória do PSA em água e saneamento, presente desde sua fundação e ampliada, ao longo do tempo, para eletrificação solar, conectividade e formação técnica. Essa experiência consolidou tecnologias sociais adaptadas às condições de cada território, reunindo sistemas comunitários de abastecimento, redes hidráulicas, captação e tratamento da água, soluções sanitárias, filtros e energia renovável. Entre 2018 e 2025, os relatórios registram ao menos 992 tecnologias sociais familiares que incluem captação de água da chuva, muitas delas integradas a banheiros, fossas, reservatórios e outras soluções de saneamento. As primeiras ações documentadas de eletrificação comunitária com energia solar remontam a 2004 e, desde então, os sistemas fotovoltaicos passaram a atender moradias, sistemas de água, unidades de saúde, escolas, conectividade e atividades produtivas.

Em 2025, o PSA ampliou essa atuação com 18 comunidades atendidas por tecnologias sociais de acesso à água, 87 filtros coletivos instalados em 85 comunidades, 5 mil filtros familiares entregues em 100 comunidades e 433 pessoas formadas em uso e gestão da água. Na frente de energia renovável, foram entregues 59 kits solares familiares e realizadas novas formações do programa Eletricistas do Sol. Também foi implantado um novo microssistema de abastecimento com energia solar no bairro União, em Alter do Chão, e revitalizadas dez UBS, seis delas com reforma e instalação de sistemas solares.

Acesso à Água Potável e Saneamento Básico​

Garantir água segura e condições adequadas de saneamento e higiene exige soluções adaptadas aos rios, às distâncias, às cheias, às secas e às formas de organização de cada comunidade. Esta linha reúne tecnologias sociais de água, saneamento e higiene (WASH, na sigla internacional), combinando diagnóstico local, participação comunitária, formação para uso e gestão dos sistemas e articulação com políticas públicas voltadas aos territórios rurais, ribeirinhos, indígenas e quilombolas.

Trinta e quatro famílias da aldeia Nova Sociedade conquistam sistemas de abastecimento de água e banheiros
Sistema comunitário de abastecimento com bombeamento solar na Aldeia Nova Trairão, território Munduruku do Alto Tapajós.
Abastecimento comunitário

Cada comunidade tem uma realidade própria de acesso à água. Fonte disponível, forma de bombeamento, armazenamento, distribuição, regras de uso e manutenção precisam ser definidos a partir do território e da participação dos moradores. Em áreas isoladas da rede elétrica, os sistemas comunitários podem operar com energia solar e, quando necessário, em arranjos híbridos solar/diesel, reduzindo deslocamentos, custos com combustível e dependência de fontes inseguras. Em diálogo com políticas públicas como o Programa Cisternas, o PSA apoia esses sistemas como tecnologia social, combinando conhecimento técnico, conhecimento local, formação, autogestão e acompanhamento comunitário. Em 2025, foram implantados 9 sistemas de bombeamento de água, fortalecendo segurança hídrica, autonomia comunitária e adaptação climática nos territórios.

Filtros familiares e coletivos

Em períodos de seca extrema ou cheia, muitas comunidades precisam recorrer a fontes superficiais de água, como rios, lagos e igarapés, nem sempre seguras para o consumo. Os filtros familiares e coletivos oferecem uma resposta rápida e de baixo custo para ampliar o acesso à água segura em territórios sem abastecimento regular, especialmente em situações de crise hídrica. O PSA trabalha com diferentes modelos de filtros, incluindo tecnologias de membrana e micromembrana, destinadas ao uso doméstico e a espaços coletivos como escolas, unidades de saúde e barracões comunitários. A entrega é acompanhada de orientação sobre uso, limpeza, manutenção e cuidados com a água. Em 2025, foram instalados 87 filtros coletivos em 85 comunidades e entregues 5 mil filtros familiares em 100 comunidades, fortalecendo saúde, segurança hídrica e adaptação climática nos territórios.

Filtros familiares
Filtros familiares ampliam o acesso à água segura em comunidades sem abastecimento regular, especialmente em períodos de seca e cheia.
Na aldeia Munduruku Sawre Apompo, uma demanda antiga da comunidade resultou, em 2023, em sete módulos sanitários ligados ao sistema de água e a fossas sépticas, beneficiando 59 pessoas.
Saneamento e higiene

Desde os primeiros anos do PSA, o saneamento acompanha as ações de saúde e acesso à água. Essa frente ganhou escala no início dos anos 2000 e, até 2019, registrava 4.306 estruturas sanitárias instaladas em 129 comunidades. As soluções evoluíram de fossas e estruturas básicas para banheiros completos, ligados à destinação adequada dos efluentes, inclusive com modelos suspensos adaptados às áreas de várzea. Nos ciclos mais recentes, o trabalho alcançou, em 2025, oito escolas Munduruku, quatro UBS Indígenas e a CASAI de Jacareacanga, com reformas de banheiros, pias e melhorias hidrossanitárias. Em 2026, a comunidade Escrivão recebeu um sistema integrado de água, energia e saneamento para 64 famílias. Em cada território, as ações articulam demandas comunitárias, parcerias públicas, formação, manutenção e gestão local.

Gestão comunitária da água

A continuidade das tecnologias sociais depende da capacidade das comunidades de usar, manter e gerir os sistemas implantados. Por isso, o PSA acompanha a formação de moradores, comitês e responsáveis locais para fortalecer regras de uso, manutenção preventiva, limpeza, pequenos reparos e organização coletiva da água. Essa gestão comunitária ajuda a reduzir falhas, amplia a autonomia local e fortalece o vínculo entre tecnologia, saúde e direito à água segura. Em diálogo com políticas públicas como o Programa Cisternas, a formação para uso e gestão da água transforma cada sistema em uma solução apropriada pelo território, e não apenas entregue à comunidade. Em 2025, 433 pessoas foram formadas em uso e gestão da água.

Gestão comunitária da água
Comunidade reunida junto ao sistema de abastecimento, parte da gestão local das tecnologias de acesso à água.
Encontro em Alter do Chão reuniu comunidades, poder público e parceiros para fortalecer políticas de acesso à água na Amazônia.​
Política pública de acesso à água na Amazônia

Em 2025, o PSA sediou, em Alter do Chão, o Seminário Nacional sobre acesso à água na Amazônia, um espaço de escuta e construção entre comunidades, poder público, organizações da sociedade civil, pesquisadores e parceiros. O encontro fortaleceu o debate sobre a ampliação do Programa Cisternas na região amazônica, com foco em modelos de financiamento, adaptação climática, tecnologias sociais e formas de gestão capazes de chegar a territórios onde os modelos convencionais de infraestrutura têm dificuldade de avançar.

Energias renováveis

Desde 2004, os relatórios do PSA registram ações de eletrificação comunitária com energia solar, inicialmente para manter telecentros conectados à internet. Ao longo de duas décadas, painéis e sistemas fotovoltaicos passaram a atender moradias e a sustentar abastecimento de água, unidades de saúde, escolas, conectividade e atividades produtivas. Em territórios onde a rede convencional não chega ou funciona de forma instável, essas tecnologias sociais ampliam o acesso a serviços essenciais, combinando infraestrutura, formação técnica, manutenção e gestão local.

Eletrificação solar nos territórios

Desde os primeiros telecentros movidos a energia solar, em 2004, os sistemas fotovoltaicos passaram a sustentar diferentes dimensões da vida comunitária. Eles fornecem energia para moradias, movimentam sistemas de abastecimento de água, ajudam a manter vacinas e equipamentos de saúde, conectam comunidades à internet e apoiam escolas, centros de formação e atividades produtivas. Ao longo dessa trajetória, o PSA apoiou ao menos 111 kits solares residenciais, 56 sistemas de bombeamento de água, além de instalações em escolas, centros de formação e empreendimentos comunitários. Cada solução é adaptada às condições e às necessidades do território, articulando eletrificação, formação técnica, manutenção e gestão local.

Sistema solar de geração de energia implantado em 2021 na Aldeia Pajura da etnia Tupinambá na comunidade de Cabeceira do Amorim no Rio Tapajos.
Terceira edição do curso ‘Mulheres eletricistas do sol’ fortalece autonomia energética em comunidades da Amazônia
Transição energética com inclusão social, protagonismo feminino e tecnologias adaptadas à Amazônia.
Elemento folhas roxa e verde
Mulheres Eletricistas do Sol

A expansão da energia solar precisa vir acompanhada de conhecimento técnico nos próprios territórios. O curso Eletricistas do Sol já realizou sete edições, formando pessoas para instalar, operar e fazer a manutenção de sistemas fotovoltaicos. Entre elas, duas turmas foram destinadas exclusivamente às mulheres.

Essas duas edições reuniram 43 participantes de 17 comunidades, aldeias e quilombos, ampliando a autonomia energética e abrindo novas possibilidades de atuação profissional e renda em uma área técnica ainda marcada pela presença masculina.

Acesso à internet

A falta de acesso à internet ainda aprofunda o isolamento geográfico e limita o exercício de direitos básicos. Sem conectividade, comunidades remotas têm mais dificuldade para acessar informação, educação, serviços públicos, teleatendimento em saúde, comunicação em situações de emergência e oportunidades de formação e articulação. Para enfrentar essa exclusão, o PSA atua na ampliação do acesso à internet em áreas isoladas, integrando conectividade digital às demais infraestruturas essenciais do território.

Essa atuação combina tecnologia, formação e uso social da conectividade. Ao instalar pontos de acesso, kits de conectividade e soluções adaptadas à realidade amazônica, o PSA fortalece a comunicação comunitária, apoia escolas, telecentros, unidades de saúde e processos formativos, e amplia a capacidade das comunidades de produzir informação, acessar políticas públicas e participar mais ativamente da vida social e institucional.

Conectividade para romper o isolamento e ampliar direitos nos territórios amazônicos.
Elemento folhas verde e vermelha

Gestão de tecnologias sociais, replicação e adaptação climática

Tecnologias sociais que nascem no território, ganham escala e fortalecem a adaptação climática na Amazônia.

Diante do agravamento da crise climática, a Amazônia exige soluções que não sejam importadas de outros contextos, mas construídas, testadas e adaptadas a partir do território. O PSA atua justamente nesse ponto: desenvolve e integra tecnologias sociais de água, saneamento, energia e conectividade, transformando experiências locais em referências práticas para comunidades, parceiros e políticas públicas.

Mais do que implantar soluções isoladas, essa frente busca gerar capacidade de adaptação e replicação. Ao sistematizar aprendizados, formar agentes locais e apoiar modelos demonstrativos, o PSA fortalece respostas concretas para territórios que já convivem com seca extrema, estresse hídrico, isolamento e outras pressões ambientais, ampliando resiliência comunitária e capacidade de permanência com dignidade.

Diário de Bordo

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