A alegria não tira nossa seriedade
Contribuir para o bem viver dos povos, a partir da Amazônia e do seu poder transformador para o mundo.
Metodologias participativas e tecnologias sociais contribuindo para o desenvolvimento alegre, harmônico e sustentável dos povos.
O Projeto Saúde e Alegria nasceu de uma experiência que começou dentro do serviço público. Em 1983, o médico sanitarista Eugênio Scannavino Netto e a arte-educadora Márcia Silveira Gama chegaram ao Tapajós para atuar, pela Prefeitura de Santarém, na saúde das comunidades ribeirinhas. Logo perceberam que consulta e remédio não bastavam: muitas doenças poderiam ser prevenidas com água tratada, alimentação, higiene, educação e participação comunitária. Juntos, começaram a formar voluntários locais e a realizar ações educativas, das quais surgiram os primeiros Patrulheiros da Saúde. Já nesse período, as gincanas ganharam forma de circo. Márcia organizou os primeiros espetáculos e mandou fazer a primeira cortina. Ainda não se chamava Gran Circo Mocorongo, mas o circo já começava a se tornar uma marca do trabalho.
Quando a mudança da gestão municipal interrompeu as atividades, em 1985, aquela experiência precisava continuar. Assim, Eugênio e Márcia fundaram o Projeto Saúde e Alegria, constituindo o Centro de Estudos Avançados de Promoção Social e Ambiental, o CEAPS, como organização independente. Com o apoio de Sérgio Arouca, a experiência prática foi sistematizada na Fiocruz e transformada em projeto. Em 1987, recursos do BNDES/Finsocial, com retaguarda institucional da Fiocruz e execução da FADESP/UFPA, permitiram a retomada das atividades em Santarém com uma pequena equipe interdisciplinar.
Foi nesse projeto já em movimento que Caetano Scannavino chegou a Santarém, em 1988, para passar seis meses ajudando a estruturar a comunicação. Não voltou. Fotógrafo e comunicador, vinha para documentar as ações, mas logo percebeu que, antes de ensinar, precisava aprender com as formas de comunicação que já existiam nas comunidades. A técnica podia ampliar aquelas vozes, registrá-las e fazê-las circular, mas não criava o vínculo. Desse aprendizado nasceriam jornais, rádios e vídeos produzidos por jovens das próprias comunidades e, mais tarde, a Rede Mocoronga de Comunicação.
No início dos anos 1990, o corte abrupto do financiamento do BNDES quase levou o PSA ao fim. O escritório ficou sem luz, telefone e recursos para manter as viagens, mas as próprias comunidades assumiram atividades e ajudaram a sustentar o Projeto. Foi justamente nesse período de maior fragilidade que o PSA foi escolhido como uma das seis experiências brasileiras apresentadas na Eco-92. A TV Mocoronga cobriu a conferência pelo olhar de quem estava fora das salas oficiais, traduzindo os grandes debates sobre meio ambiente e desenvolvimento para a vida comum. Magnólio, Paulo Roberto Sposito de Oliveira, foi essencial nesse momento. Palhaço, ator e comunicador, reuniu irreverência, inteligência popular, crítica e afeto, ajudando a moldar um princípio que atravessaria a história do PSA: a alegria não tira nossa seriedade.
Ao longo dos anos 1990, a saúde continuou como ponto de partida, articulada ao Gran Circo Mocorongo, à comunicação popular e à organização comunitária. Ao mesmo tempo, novas frentes ganharam corpo. Entre elas, Márcia criou o departamento de gênero Mulher Cabocla, com ações de formação, participação e autonomia econômica das mulheres, como a experiência com as artesãs de Urucureá e o artesanato em palha de tucumã.
Na virada dos anos 2000, o PSA passou a trabalhar em escala territorial, em áreas como a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, a Floresta Nacional do Tapajós e o PAE Lago Grande. Saúde, saneamento, energia, produção, comunicação e organização comunitária precisavam avançar de forma articulada. A Amazônia não comporta soluções importadas de realidades urbanas e compactas: seus municípios têm dimensão de países, as distâncias são imensas e os rios definem os caminhos. Falar em política pública sem enfrentar essa geografia é produzir ficção administrativa.
Foi dessa busca por uma atenção à saúde adaptada ao território que nasceu, em meados dos anos 2000, o Abaré. O barco passou a realizar viagens regulares pelas comunidades das duas margens do Tapajós, articulando equipes, prefeituras e organizações locais. Mais de 90% dos casos eram resolvidos na própria embarcação, evitando deslocamentos longos e reorganizando o acesso ao cuidado com inteligência territorial. A experiência mostrou que transformação social precisa combinar escuta comunitária, desenho técnico e capacidade de incidência institucional. Em 2010, o modelo foi incorporado ao SUS por meio da política de Saúde da Família Fluvial e inspirou mais de uma centena de embarcações na Amazônia.
Transformar o Abaré em política pública exigiu também abrir mão da ideia de que uma experiência bem-sucedida deveria permanecer sob controle do PSA. O papel da sociedade civil não era substituir indefinidamente o Estado, mas mostrar caminhos, testar soluções e contribuir para que elas se tornassem direitos. Quando a organização financiadora anunciou que retiraria o barco do Tapajós, a campanha Fica Abaré reuniu comunidades, universidade, poder público e aliados para garantir sua permanência. Foi uma lição decisiva: comunicação não é acessório; é incidência, disputa de sentido e proteção territorial.
A mesma lógica orientou outras frentes. Sistemas comunitários de água e energia solar, agroflorestas, cadeias da sociobiodiversidade, inclusão digital, UBS da Floresta e experiências como o Centro Experimental Floresta Ativa foram sendo testados, adaptados e difundidos a partir das condições locais. Uma tecnologia só se torna social quando as comunidades participam de sua criação, dominam seu funcionamento e podem administrá-la com autonomia. O objetivo nunca foi distribuir equipamentos, mas transformar conhecimento e infraestrutura em capacidades que permanecem no território.
As últimas décadas também trouxeram novos enfrentamentos. Em 2019, no episódio envolvendo os brigadistas de Alter do Chão, o PSA foi alvo de ameaças, campanhas difamatórias e uma busca e apreensão; o inquérito foi posteriormente arquivado sem que fossem encontradas irregularidades. Pouco depois, a pandemia de Covid-19 voltou a mostrar a importância das redes comunitárias, da solidariedade e da comunicação. Enquanto ajudavam a enfrentar a emergência sanitária, povos indígenas, juventudes e lideranças ampliavam sua presença nos meios digitais, fazendo circular suas próprias vozes.
Nos anos seguintes, essa forma de trabalhar continuou produzindo novas respostas. A área de Economia da Floresta ampliou as ações de restauração produtiva, com viveiros, redes de sementes, sistemas agroflorestais e apoio à produção comunitária. O Ecocentro da Sociobioeconomia criou infraestrutura para beneficiar mel, sementes, óleos, frutas, borracha e outros produtos da floresta, agregando valor e fortalecendo cadeias conduzidas por cooperativas e organizações locais.
Na saúde, as UBS da Floresta reuniram energia solar, conservação de vacinas, equipamentos, conectividade e telessaúde em um modelo adaptado às comunidades remotas. Em áreas diferentes, o Ecocentro e as UBS partem da mesma pergunta: como transformar conhecimento e infraestrutura em capacidades que permaneçam no território? É dessa combinação entre experiência de campo, saberes locais e ciência que surgem tecnologias sociais ajustadas às realidades amazônicas.
A seca extrema de 2023 deixou claro que a crise climática já chegou à Amazônia. Rio baixo, comunidades isoladas, água comprometida, alimentos mais caros e atendimento dificultado revelaram como o clima atravessa todas as dimensões da vida. É dessa experiência que ganha força a proposta de Territórios de Saúde, Bem-Viver e Clima, aproximando políticas públicas, tecnologias sociais e organização comunitária. Ao longo de quarenta anos, o PSA consolidou um modo próprio de atuar: construir soluções que possam ser apropriadas, mantidas e compartilhadas. O objetivo nunca foi fazer tudo para sempre, mas contribuir para que comunidades, organizações e políticas públicas sigam adiante com cada vez mais autonomia.
Acompanhe ações e aprendizados construídos com comunidades e parceiros.
40 anos de história, inovação e compromisso com o bem viver dos povos da Amazônia.
Fundação do Centro de Estudos Avançados de Promoção Social e Ambiental (CEAPS), que mantém o Projeto Saúde e Alegria (PSA)
Com o diagnóstico participativo que identifica a saúde como maior desafio nas 16 comunidades rurais atendidas, tem início o processo de educação e participação comunitária, que traz resultados imediatos. As comunidades se mobilizam ainda mais: voluntários tornam-se monitores de saúde; professores e alunos se engajam em oficinas de saúde e ecologia; jovens atuam como repórteres para jornais locais e passam a produzir peças de rádio e vídeo. O Circo Mocorongo é o principal espaço de mobilização social.
PSA assina seu primeiro convênio de cooperação, com recursos do BNDES (Finsocial), interveniência da FADESP/UFPA e supervisão técnica da Fiocruz.
Com a crise econômica e a extinção do Finsocial do BNDES pelo Plano Collor, o PSA perde sua fonte de financiamento. Pequenas contribuições e a determinação das comunidades garantem a continuidade do projeto, ainda que mais timidamente.
O PSA participa da criação do Grupo de Trabalho Amazônico na Rio-92 e é uma das seis experiências que representam o Brasil na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Meio Ambiente (UNCED-92).
Graças à repercussão dos eventos da ONU e à articulação com movimentos, organizações e agências de cooperação, o PSA recompõe seu quadro técnico e reinicia suas atividades de campo.
Passada a crise, a organização e a autogestão comunitária torna-se o foco, com priorização das ações educativas e de assessoria a líderes comunitários. A ampliação das parcerias com outras organizações e com o poder público também passa a ser prioridade. Com a melhora nos índices de saúde, as ações passam a envolver mais educação, geração de renda e defesa do meio ambiente.
PSA inicia seu programa de inclusão digital para comunidades isoladas na Amazônia, com a implantação de dois telecentros-modelo nas comunidades de Suruacá e Maguari, no Rio Tapajós – abastecidos com energia solar e contando conectados via satélite.
Ações e programas desenvolvidos nos últimos anos tornam-se tecnologias socioambientais, podendo ser replicados em outros contextos.
PSA amplia sua área de atuação, passando a atender cerca de 150 comunidades em Unidades de Conservação, glebas e assentamentos na zona rural de Santarém, Belterra e Aveiro.
Programa de saneamento nas novas áreas atendidas implanta mais de 5 mil sanitários com fossas rústicas, distribui filtros de água para praticamente 100% das famílias, implanta microssistemas de água encanada nos polos maiores e perfura poços semiartesianos nos menores. O PSA implanta Telecentros a energia solar, conectados à internet via satélite.
Inicia um novo modelo de atenção primária, adaptado à realidade ribeirinha e integrado ao poder público: a Unidade Móvel de Saúde – navio “Abaré” – atende a mais de 70 comunidades da bacia do Rio Tapajós, nos moldes do Programa Saúde da Família (PSF). O PSA também cria o laboratório de geoprocessamento (SIG), que permite o mapeamento participativo a partir de imagens de satélite; esse trabalho ajuda organizações de base a proporem novas formas de ordenamento fundiário e ambiental. A partir daí, novas áreas protegidas são criadas, e o PSA passa a formar e assessorar as populações para a autogestão de suas terras.
Área de atuação incorpora o município de Juruti (PA), na fronteira com o Amazonas, totalizando cobertura direta de aproximadamente de 30 mil ribeirinhos. Inicia-se o uso social de dispositivos móveis com sinal 3G, e a inclusão digital das comunidades permite educação a distância, telessaúde, comércio eletrônico e difusão cultural pelas populações. O PSA é qualificado como um dos “Pontões de Cultura Digital” pelo Ministério da Cultura.
O “Abaré II”, segunda UBSF do PSA, é repassado ao Município de Santarém para atender a comunidades do rio Arapiuns.
O PSA fortalece suas estratégias no campo do desenvolvimento de soluções para a economia da floresta em pé, com seu projeto Floresta Ativa Tapajós, baseado na capacitação e nos apoio a empreendimentos agroecológicos e florestais, da bioeconomia e de serviços ambientais para a redução do desmatamento, a promoção da segurança alimentar, a elevação da renda e a inclusão social das comunidades envolvidas.
O PSA é certificado pelo Ministério da Educação como organização referência em Inovação e Criatividade da Educação Básica. Como parte da estratégia Floresta Ativa, inaugura o Centro Experimental Floresta Ativa (CEFA), referência em capacitação e desenvolvimento de projetos e tecnologias socioambientais replicáveis para toda a floresta. Construído dentro da Resex, na comunidade de Carão, próxima da confluência entre os rios Tapajós e Arapiuns, possui um conjunto de instalações baseadas nos princípios da permacultura e da agroecologia, bem como estrutura receptiva para realizar capacitações voltadas ao desenvolvimento sustentável das comunidades.
Com base nas experiências com projetos de promoção do acesso à água e ao saneamento básico, o PSA é selecionado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, do Governo Federal, como entidade implementadora do Programa Cisternas para replicar, em parceria com outras organizações locais, a implantação de tecnologias sociais de acesso à água.
Visando à reposição florestal da Amazônia, o Floresta Ativa produz 305.308 mudas de espécies frutíferas e florestais, plantadas em comunidades da Resex, Projetos de Assentamento Agroextrativistas (PAE) Lago Grande, Flona e região urbana de Santarém. O programa de acesso à água chega a sete comunidades, beneficiando 353 famílias (1.346 pessoas) com sistemas de abastecimento de água movidos a energia fotovoltaica e com sanitários adaptados para saneamento básico.
Jovens realizam projetos socioeducativos por meio da Teia Cabocla, plataforma de formação e apoio ao protagonismo juvenil, criando coletivos e formando novas lideranças para atuarem em seus territórios. Cerca de 600 crianças, adolescentes e jovens são beneficiados anualmente, com oficinas socioeducativas e educação para o trabalho.
Durante a pandemia de Covid-19, o PSA mobilizou comunidades, organizações de base e parceiros em ações de prevenção, comunicação e apoio emergencial. A experiência reafirmou a força das redes comunitárias e a importância da conectividade para fazer circular informações, articular lideranças e ampliar o acesso à saúde em áreas remotas.
Nos anos seguintes, o Projeto ampliou soluções integradas em saúde, água, energia, produção e economia da floresta. As UBS da Floresta e o Ecocentro da Sociobioeconomia expressam essa nova etapa, combinando infraestrutura, tecnologias sociais e autonomia comunitária. A seca extrema de 2023 reforçou a urgência de articular essas experiências à adaptação climática, dando força à proposta de Territórios de Saúde, Bem-Viver e Clima.
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