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Infraestrutura Comunitária

Quais soluções para acesso à água segura em comunidades remotas da Amazônia podem ser replicadas globalmente?

Divisor de seção

Encontro em Santarém reuniu MIT, universidades brasileiras, organizações, empresas e poder público para discutir tecnologias utilizadas na região e possibilidades de adaptação a países da África e da Ásia

Na Amazônia, tecnologias de tratamento de água já utilizadas por organizações e comunidades colocam uma questão para pesquisadores e gestores públicos: o que permite que uma solução continue funcionando e possa atender mais famílias? Esse foi um dos eixos do Workshop Tecnologias para o Tratamento de Água em Comunidades Remotas da Amazônia, realizado de 27 a 30 de setembro, em Santarém (PA), pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA), em parceria com o MIT GEAR Center, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos.

O encontro reuniu pesquisadores, organizações da sociedade civil, empresas e representantes do poder público para compartilhar experiências, discutir desafios de operação e manutenção e identificar possibilidades de ampliar o acesso à água segura. Também colocou em debate como os conhecimentos e as tecnologias desenvolvidos na Amazônia podem contribuir para regiões da África e da Ásia que enfrentam desafios semelhantes.

Para o coordenador do PSA, Caetano Scannavino, a parceria permite somar a capacidade de pesquisa e desenvolvimento do MIT às experiências de lideranças, universidades, organizações e instituições públicas que já atuam nos territórios. O objetivo, segundo ele, é construir “soluções de ponta, na ponta”, que possam servir de referência para outros lugares. 

Entre as experiências discutidas estavam sistemas de abastecimento movidos a energia solar, filtros de balde, equipamentos que combinam tratamento e transporte de água e tecnologias de filtragem cuja eficiência será investigada. A proposta foi identificar resultados, dificuldades e demandas de pesquisa a partir de soluções já utilizadas pelas comunidades. 

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Mesa com soluções destacou algumas das iniciativas das organizações participantes do encontro.

Scannavino destacou que cheias e estiagens severas trazem desafios adicionais ao abastecimento. Durante a seca, as fontes de água podem ficar mais distantes das casas, aumentando o esforço necessário para buscar e transportar água. Por isso, a avaliação das tecnologias precisa considerar também as mudanças nas condições de acesso ao longo do ano. “Como é que a gente parte a partir destas soluções para poder validá-las, aprimorá-las e escalá-las para poder chegar a um número muito maior de famílias que precisam?”

A experiência acumulada na região foi um dos pontos apresentados por Leonardo Capeleto de Andrade, pesquisador do MIT GEAR Center. Segundo o levantamento em andamento, mais de dez instituições desenvolveram ou implementaram soluções de tratamento de água na Amazônia ao longo das últimas duas décadas. Entre elas estão o Projeto Saúde e Alegria, Água Camelo, PWTech, Instituto Mamirauá e Fundação Amazônia Sustentável. 

Capeleto explicou que o trabalho não exige necessariamente criar uma tecnologia do zero. É preciso compreender quais soluções apresentam resultados, em que condições permanecem em funcionamento e por que algumas instalações se tornam um “cemitério de infraestrutura”. A pesquisa busca reunir informações que ajudem a avaliar as possibilidades de utilização dessas tecnologias em outros territórios.

Mucuizinho
Aldeia Muiuçuzinho: melhorias no sistema de abastecimento ampliam as condições de acesso à água para as famílias da comunidade.

O pesquisador está reunindo informações sobre os custos das diferentes soluções por metro cúbico de água tratada. A comparação pode orientar investimentos, mas profissionais e organizações que atuam na região ressaltaram que o custo, isoladamente, não determina a adequação de uma tecnologia. Sua adoção depende de um diagnóstico das condições de cada território, construído com a participação das comunidades e atento à qualidade da água, à variação entre cheias e estiagens, às possibilidades de manutenção e às formas locais de organização. Para ampliar o acesso à água segura, é preciso assegurar que as pessoas participem das decisões e tenham condições de operar, manter e gerir os sistemas com autonomia. Replicar uma solução exige compreender tanto o que pode ser compartilhado entre diferentes regiões quanto o que precisa ser adaptado com quem vive em cada lugar.

Maria Cecilia Gomez, coordenadora do Programa Qualidade de Vida do Instituto Mamirauá explicou que a dimensão territorial da Amazônia exige que as instituições conheçam diferentes formas de atuação e as condições específicas encontradas em cada região. “A Amazônia é um território muito grande, a demanda por acesso à água também é muito grande e as opções de tecnologias também”, explicou. O Instituto Mamirauá levou para o encontro experiências de tratamento de água e também uma solução desenvolvida para situações emergenciais. A tecnologia foi criada durante a seca de 2023, quando a região enfrentou uma situação de escassez de água. A partir dos materiais disponíveis nos municípios onde o instituto atua, foi desenvolvido um kit que pudesse ser levado preventivamente para locais com risco de falta de água.

Nos dois anos seguintes, a solução foi aprimorada com produção de mais de 5 mil unidades, distribuídas em diferentes regiões da Amazônia. A experiência foi apresentada durante o workshop como uma das possibilidades de resposta a situações emergenciais e de preparação das comunidades diante de períodos de maior vulnerabilidade.

O debate sobre as condições necessárias para garantir o acesso à água também envolveu a sustentabilidade dos sistemas instalados nas comunidades. Gabriele Marega, especialista em Regulação de Saneamento de Recursos Hídricos e Saneamento Básico da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), chamou atenção para o paradoxo de uma região com grande disponibilidade hídrica, mas onde ainda existem dificuldades para garantir o acesso seguro à água.

A construção de respostas para esse problema precisa considerar tanto as tecnologias disponíveis quanto os conhecimentos das populações que vivem nos territórios. Ela destacou a importância de ouvir povos tradicionais, comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas e compreender como esses grupos lidam historicamente com a água e com as características de cada território. “Não só levar água, mas como continuar, garantir o acesso à água”, explicou. 

A aproximação entre diferentes setores também foi destacada por Lígia Sato, diretora de Sustentabilidade e Comunicação da PWTech. Ela destacou que participar do workshop possibilitou aproximar “academia, organizações, poder público e empresas” em torno de uma discussão comum sobre a ampliação do acesso à água segura. A empresa compartilhou durante o encontro a experiência acumulada em mais de sete anos de atuação com tecnologia para tratamento de água. 

Além dos painéis e mesas de discussão, a programação incluiu uma visita de campo à Comunidade Quilombola Nossa Senhora das Graças, na zona rural de Óbidos, onde os participantes conheceram experiências relacionadas às tecnologias de acesso e tratamento de água em ambiente de várzea e o uso de filtros de nanotecnologia. A atividade permitiu observar a aplicação das tecnologias fora do ambiente de discussão acadêmica e institucional e trouxe para o debate as condições concretas de implantação e uso dos sistemas. No retorno a Santarém, os participantes fizeram uma síntese da experiência e discutiram os aprendizados e perspectivas identificados durante a atividade.

Organizado com apoio do MIT Seed Fund, ligado ao MIT-Brasil, o workshop buscou identificar onde a pesquisa pode contribuir para aperfeiçoar as soluções existentes. A expectativa é sistematizar os debates em um documento com aprendizados e encaminhamentos, que possa subsidiar o diálogo com gestores públicos e instituições responsáveis por investimentos na área. Entre as questões discutidas estão como avaliar o desempenho das tecnologias, assegurar sua manutenção e ampliar o atendimento com participação das comunidades.

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