Previsões de um El Niño muito forte para os próximos meses aumentam a preocupação com uma nova estiagem na Amazônia. Em comunidades do Oeste do Pará, medidas de adaptação buscam reduzir os impactos antes que os rios baixem novamente
A seca ainda está na memória de quem vive às margens dos rios da Amazônia. Em 2023 e 2024, comunidades inteiras enfrentaram dificuldades para se deslocar, transportar alimentos e acessar serviços básicos por causa da baixa dos rios. Em alguns lugares, embarcações deixaram de chegar, escolas tiveram as atividades interrompidas e o acesso à água potável ficou mais difícil. O cenário também atingiu a pesca e a agricultura familiar, aumentando a pressão sobre a alimentação e a renda das famílias.
Os dois anos foram marcados por estiagens severas em grande parte da Bacia Amazônica. Um relatório do Serviço Geológico do Brasil aponta que os ciclos hidrológicos de 2023 e 2024 estiveram entre os mais secos das séries históricas de diversas bacias amazônicas, com 2024 apresentando níveis ainda mais baixos que o ano anterior em vários rios. O órgão destaca que, para as populações que dependem dos rios, a seca interfere diretamente no abastecimento, no transporte e no acesso a bens e serviços.
A experiência recente ajuda a explicar a preocupação com os próximos meses. O El Niño 2026/2027 foi confirmado em junho e os órgãos federais de monitoramento climático apontam mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre setembro e novembro. Para a Amazônia Legal, a previsão indica chuvas abaixo da média em áreas do Pará, Amazonas, Acre, Amapá, Roraima e outros estados da região, acompanhadas de temperaturas acima da média.

Na Amazônia, a água determina a possibilidade de chegar à escola, levar um paciente para atendimento, transportar alimentos, escoar a produção e chegar a uma comunidade que depende do transporte fluvial. Durante as secas de 2023 e 2024, esses problemas apareceram de forma concreta. Dados mostram que os baixos níveis dos rios chegaram a comprometer o transporte de alimentos, medicamentos e água potável e provocaram isolamento de comunidades ribeirinhas e indígenas.
É nesse cenário que comunidades e organizações do Baixo Amazonas e do oeste do Pará voltam a discutir como se preparar antes que a estiagem se agrave. Em agosto, 20 organizações da sociedade civil, movimentos sociais e associações comunitárias entregaram ao Governo Federal, em Santarém, uma carta com propostas para enfrentar os impactos previstos do El Niño na região.
O documento foi apresentado durante os Diálogos Regionais El Niño 2026/2027, evento promovido pela Secretaria-Geral da Presidência da República, e reúne demandas relacionadas ao abastecimento de água, segurança alimentar, saúde, agricultura familiar, prevenção de incêndios e preparação das comunidades para os períodos de seca. Entre as medidas propostas estão a ampliação da distribuição de filtros de nanotecnologia, investimentos em poços e sistemas de abastecimento, instalação de placas solares para bombeamento de água e implantação de reservatórios em cerca de 2 mil comunidades.
“É fundamental os diálogos regionais, essa iniciativa e série de eventos, seminários, escutas com a sociedade civil, seja aqui em Santarém, seja em outras regiões da Amazônia, outras regiões do Brasil, para a gente poder estar se mobilizando, construindo propostas, somando esforços com as autoridades, governos, para o enfrentamento de mais um El Niño, de mais um extremo climático, uma seca severa, o que infelizmente parece ser o novo normal”, afirmou Caetano Scannavino, coordenador do Projeto Saúde e Alegria, durante o encontro.
Água antes da estiagem

Parte das medidas apontadas na carta já vem sendo colocada em prática pelo Projeto Saúde e Alegria em diferentes territórios. No Programa de Infraestrutura Comunitária, o acesso à água potável é trabalhado por meio de diferentes soluções, de acordo com as condições de cada comunidade.
Uma delas é a distribuição de filtros de nanotecnologia, destinados ao uso familiar e coletivo. O programa alcançou 5.250 pessoas, em comunidades ribeirinhas, aldeias e áreas de maior vulnerabilidade de municípios como Santarém, Alenquer, Óbidos, Aveiro, Oriximiná, Juruti, Curuá, Jacareacanga e Nhamundá.
Os filtros são uma alternativa para melhorar a qualidade da água utilizada pelas famílias, especialmente em locais onde o acesso à água tratada é limitado. A tecnologia utilizada nos equipamentos distribuídos pelo PSA é apresentada como capaz de reter 99,99% das impurezas.
Outra frente é o Programa Cisternas na Amazônia, voltado à captação e ao armazenamento de água da chuva. Atualmente, o levantamento do Programa de Infraestrutura registra 1.084 famílias atendidas por essa iniciativa em comunidades tradicionais de Santarém, Aveiro, Óbidos e Oriximiná.
Energia solar para manter a água chegando

A energia é outra parte dessa preparação. Em comunidades onde não há acesso regular à rede elétrica, a geração solar pode ser utilizada para alimentar sistemas de bombeamento e levar água para mais perto das casas.
O PSA vem trabalhando com sistemas de bombeamento movidos a energia solar em comunidades tradicionais e também com kits domiciliares de geração fotovoltaica. Entre as iniciativas do Programa de Infraestrutura Comunitária estão projetos voltados à implantação de sistemas de abastecimento alimentados por energia solar e à eletrificação de escolas e unidades básicas de saúde.

Na aldeia e comunidade Nova Sociedade, por exemplo, foram entregues kits domiciliares de energia solar por meio de uma parceria com a Schneider e a UKS. Os equipamentos permitem iluminação das casas e o uso de aparelhos de baixo consumo e 12 volts, como ventiladores, televisão, som, internet e carregadores de celulares.