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Saúde na Floresta

Oficinas fortalecem a importância do autocuidado com pais, cuidadores e famílias ribeirinhas do Tapajós

Divisor de seção

Atividades realizadas em Parauá e Vila de Boim promovem espaços de escuta e autocuidado para responsáveis por crianças de 0 a 6 anos e levaram informações sobre direitos e proteção para dentro da escola, com a presença da Vara da Infância e Juventude

O Projeto Saúde e Alegria (PSA), em parceria com a Fundação Van Leer, realizou, em setembro, oficinas Cuidar de Quem Cuida, voltadas a responsáveis por crianças de 0 a 6 anos acompanhadas pelo Programa de Crescimento e Desenvolvimento da Criança nas unidades de saúde de Parauá e Vila de Boim, na região do Rio Tapajós. A iniciativa criou espaços de escuta e diálogo sobre cuidado, autocuidado, saúde emocional e redes de apoio, levando em consideração os desafios enfrentados por famílias que vivem nas comunidades ribeirinhas.

Em Parauá, a oficina ocorreu nos dias 08 e 09 de setembro, no Ginásio da Escola Municipal Frei Marcos. Na Vila de Boim, as atividades foram realizadas nos dias 10 e 11 de setembro, na área coberta da cozinha comunitária da Igreja Santo Inácio de Loyola e no Ginásio da Escola Municipal Santo Inácio de Loyola. A proposta foi criar um momento de pausa e reflexão para pessoas que, na rotina, concentram grande parte da responsabilidade pelo cuidado de crianças pequenas. “É importante o cuidador tirar um momento para si, ter aquele momento de cuidar dele mesmo, entender o que está acontecendo com ele, perceber qual o momento em que precisa de ajuda e acionar a rede de apoio”, destaca Efraina Barbosa, assistente social do PSA.

As conversas também buscaram ampliar a compreensão sobre o que pode ser uma rede de apoio e como ela pode ser acionada no cotidiano. Familiares, amigos, professores, profissionais de saúde e outras pessoas de confiança da comunidade podem fazer parte dessa rede, especialmente em momentos em que o cuidador percebe que não consegue lidar sozinho com determinada situação. A oficina propôs ainda a identificação de atividades simples capazes de contribuir para o bem-estar, como cuidar de plantas, praticar uma atividade física, cultivar uma horta ou encontrar outros momentos de relaxamento.

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A discussão sobre autocuidado esteve diretamente relacionada à saúde emocional. “Muitas vezes essa pessoa está com problema psicológico, está passando por um sofrimento psíquico”, explica Efraina, ao destacar a importância de reconhecer os sinais de sofrimento e buscar ajuda profissional quando necessário. Durante as atividades, os participantes receberam orientações sobre os caminhos disponíveis na rede pública, incluindo unidades de saúde e serviços de psicologia e atendimento psicossocial, além da possibilidade de contar com profissionais que podem fazer os encaminhamentos necessários.

Na Vila de Boim, a programação ganhou uma dimensão ainda mais ampla com a presença da rede de proteção da criança e do adolescente. A atividade realizada na Escola Municipal Santo Inácio de Loyola reuniu representantes do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Conselho Tutelar e Vara da Infância e Juventude, em uma articulação que aproximou instituições responsáveis pela garantia de direitos da comunidade escolar e das famílias. A juíza de direito Karise Assad, titular da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, esteve presente no encontro e participou diretamente da conversa com estudantes, professores, familiares e moradores.

A presença do Poder Judiciário no território teve como objetivo aproximar a população das instituições responsáveis pela garantia de direitos e criar um espaço de diálogo sobre proteção de crianças e adolescentes. “A grande importância é levar ao conhecimento, acesso à informação e, principalmente, os direitos, porque muitas vezes essas comunidades ficam longe, distantes e se sentem esquecidas.”, afirmou Karise Assad.

Em vez de uma palestra formal, o encontro foi conduzido como uma conversa aberta, permitindo que os participantes apresentassem dúvidas e compartilhassem situações relacionadas à realidade da comunidade. Para a magistrada, esse formato também possibilita que o Poder Judiciário conheça de maneira mais próxima as particularidades dos territórios onde vivem as famílias atendidas pela instituição. “É muito importante o Poder Judiciário estar presente nesses momentos, ouvir, escutar, entender, porque lá, depois, quando o processo chega no nosso gabinete, no dia a dia, a gente já consegue visualizar como é aquele local.”

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A atividade integrou as ações de promoção dos direitos de crianças e adolescentes desenvolvidas pelo PSA na região e levou para o ambiente escolar informações sobre situações de violência, negligência, abuso e exploração sexual, além dos caminhos para buscar ajuda e realizar denúncias. A participação da Vara da Infância e Juventude também representou a primeira presença da instituição em uma comunidade ribeirinha da região do Tapajós para tratar diretamente da garantia dos direitos de crianças e adolescentes.

A aproximação entre a rede de proteção e a comunidade escolar foi recebida como uma oportunidade de fortalecer quem está diariamente em contato com as crianças. Diretor da Escola Municipal Santo Inácio de Loyola, Raimundo Rodrigues destacou que a iniciativa contribuiu para ampliar o acesso a informações que podem ajudar a prevenir situações de violência e proteger crianças e adolescentes. “Vem trazer informações muito importantes para nossa comunidade escolar, para os pais, para os nossos alunos. É um momento de esclarecimento”, afirma.

A presença de profissionais e instituições no território também permitiu que o tema fosse tratado de forma mais direta, incluindo situações que muitas vezes permanecem escondidas ou não são reconhecidas como formas de violência. Para Karise, conhecer presencialmente a comunidade também contribui para que o trabalho desenvolvido pelo Judiciário considere as especificidades do território. “Eu já tinha ouvido falar muito da comunidade, já tinha passado por alguns processos, mas estar aqui hoje, presencialmente, ainda mais trazendo conhecimento para a população, é muito importante e nos deixa muito feliz também.”

Professora da educação infantil na escola, Marildes Pedrosa Serrão ressaltou a importância de mostrar às famílias que a responsabilidade pela proteção não precisa ser enfrentada de forma isolada. “Nós não estamos só. Isso dá para perceber que nós não estamos só e nós podemos fazer a diferença na vida das crianças, não só na vida das crianças, como das famílias”, afirma. A escola ocupa uma posição estratégica nesse processo por estar próxima das crianças e de suas famílias e por poder identificar mudanças de comportamento, situações de vulnerabilidade ou outros sinais que demandem atenção e encaminhamento.

A atividade também reforçou a importância de romper o silêncio diante de situações de violência. “A escola tem esse papel fundamental de despertar as entidades para que as famílias não estejam sozinhas, as pessoas não sofram caladas”, destaca Marildes. A mobilização da rede busca justamente evitar que situações de negligência ou violência permaneçam sem resposta e ampliar as possibilidades de intervenção antes que os impactos sobre crianças, adolescentes e famílias se agravem.

Para a juíza, a articulação com organizações que já possuem uma relação próxima com as comunidades é fundamental para ampliar o alcance das ações de proteção. “Saúde e Alegria acabou sendo um parceiro muito importante que nos ajuda também, porque eles têm esse contato direto com a comunidade, que muitas vezes nós não temos, e nos auxilia a estar nesses espaços falando.” A aproximação, segundo Karise, permite que temas relacionados aos direitos de crianças e adolescentes sejam discutidos diretamente nos territórios, considerando suas características e necessidades específicas.

Durante o encontro, foram apresentados os principais caminhos para a denúncia e o acionamento da rede de proteção, incluindo o Disque 100, o Conselho Tutelar e os serviços de segurança pública. A orientação reforçou que reconhecer uma situação de violência é apenas o primeiro passo e que famílias, profissionais da educação, saúde e toda a comunidade podem contribuir para interromper ciclos de violência e garantir proteção. “Proteger a criança e o adolescente é um dever de toda a sociedade”, destaca Efraina Barbosa.

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