“Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe” destaca ancestralidade, memória, cinema e defesa do território e entra em cartaz nos cinemas em 20 de agosto com exibições anunciadas em Santarém, Belém, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo
Santarém recebeu a pré-estreia de “Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe”, documentário dirigido coletivamente pelas cineastas indígenas Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay, integrantes do coletivo audiovisual Daje Kapap Eypi, com produção de Estevão Ciavatta, da Pindorama Filmes.
Falado na língua nativa, o filme aborda a cosmologia Munuduruku sobre a criação do mundo, do Rio Tapajós e da floresta na qual seres humanos, plantas e animais integram uma mesma teia vital. No entanto, essa relação de pertencimento enfrenta ameaças constantes. A obra expõe as invasões, o avanço do garimpo ilegal e os graves riscos à saúde causados pela poluição dos rios.
Uma das diretoras, Aldira Akay, explica que o documentário “traz um ponto muito importante, que passa dentro do nosso território, que é o impacto da contaminação do mercúrio que a gente sofre pelo impacto do garimpo”, afirmou. Para ela, a defesa territorial está diretamente relacionada à continuidade da vida: “A floresta, na verdade, ela é uma vida. Sem ela a gente não existe.”
O uso do audiovisual aparece no filme enfatizando a autonomia da juventude e uma virada de protagonismo. Aldira lembra que, durante muito tempo, as aldeias dependiam de pessoas de fora para registrar e divulgar o que acontecia dentro dos territórios. A formação de realizadores indígenas modificou esse processo ao permitir que os próprios Munduruku assumissem a produção de imagens e narrativas. “Antes a gente não conhecia essa ferramenta. A gente tinha que chamar outras pessoas, que não eram indígenas, para poder contar nossa história. Hoje não. A gente já tem essa ferramenta em nossa mão como uma arma para se defender também de projetos de invasão para dentro do território”, relata.

Esse processo de fortalecimento da comunicação indígena também integra a estratégia do Projeto Saúde e Alegria (PSA) que vem atuando no território em diversas frentes como saúde, infraestrutura, energia e comunicação. “Estamos felizes por termos ajudado junto com outros parceiros como a Pindorama Filmes nessa trajetória de formação do coletivo audivisual Daje Kapap Eypi por meio do Projeto Vozes do Tapajós, que colaborou com ações de formação que tem resultado em iniciativas maravilhosas como essas, ganhando autonomia, qualidade na produção, e mais visibilidade para aldear as telas”, comemorou Fabio Pena, coordenador de educomunição do PSA.
O avanço do grupo, hoje envolvido na realização de uma obra com circulação em festivais e salas de cinema, evidencia a ampliação da capacidade de produzir, registrar e distribuir conteúdos a partir das próprias comunidades, deslocando os povos indígenas da condição de personagens para o lugar de autores de suas narrativas.
Para o coordenador do Projeto Saúde e Alegria, Eugênio Scannavino, esse protagonismo está entre os principais aspectos da produção. “É o Munduruku falando pelo Munduruku”, sintetizou após a sessão. Ele destacou ainda a importância de assistir às histórias na língua e na perspectiva de quem as vive: “Os indígenas já escutaram muita gente falando a nossa língua, a hora da gente escutar a língua deles, a história deles, do jeito da visão deles.”

O protagonismo das mulheres na direção foi outro aspecto destacado por quem acompanhou a pré-estreia. O antropólogo Gabriel Licata, vice-presidente do Instituto Regatão, observa que a presença de três mulheres indígenas à frente do filme altera não apenas quem aparece na tela, mas também quem decide como a história será construída. “Não é uma história contada pelos brancos. É uma história contada por três mulheres indígenas”, afirmou. Para ele, isso ganha dimensão política quando envolve território e memória, porque “quem controla a narrativa é quem está contando a história”.
Entre o público, a produção também provocou reflexões sobre a permanência da língua, das tradições e dos conhecimentos transmitidos entre gerações. André, estudante de Arqueologia, relacionou a experiência do filme à compreensão das lutas históricas dos povos indígenas e à preservação cultural. “São vários anos mantendo a cultura, mantendo a tradição, mantendo a língua e lutando e resistindo”, afirmou. Ao final da sessão, resumiu a experiência como uma produção construída em diferentes níveis: “O filme tem vários aspectos, várias camadas e é um filme de resistência.”
A cosmologia apresentada em Mundurukuyü também conduz o público a outra maneira de compreender as relações entre pessoas e natureza. O produtor Estevão Ciavatta destaca que o filme apresenta uma história vinculada não apenas ao povo Munduruku, mas à própria formação cultural do Brasil. “Vocês vão assistir uma história muito original e que faz parte da nossa história, da história do Brasil, e conhecer mais profundamente o povo Munduruku, a mitologia e como é que eles vivem”, afirmou. A ideia de parentesco entre os diferentes seres, presente ao longo da narrativa, é apontada por ele como uma das mensagens capazes de dialogar também com quem vive fora dos territórios indígenas.
A produção audiovisual aparece, como registro da memória e ferramenta de defesa do território. O filme reúne imagens do cotidiano, narrativas dos mais velhos, animação, música e relatos sobre conflitos contemporâneos, construindo uma obra em que passado e presente não aparecem separados. A história contada na tela parte dos próprios Munduruku e estabelece uma relação direta entre a permanência das histórias, a preservação da língua e a capacidade de continuar ocupando e protegendo o território.
Antes da estreia comercial, o documentário já havia passado por mais de 30 festivais internacionais e recebido premiações. A partir de 20 de agosto, Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe entra em cartaz nos cinemas, com exibições anunciadas em Santarém, Belém, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. A circulação nacional amplia a presença do cinema indígena nas salas comerciais e leva para novos públicos uma narrativa produzida por mulheres que transformaram a câmera em instrumento de memória, comunicação e proteção territorial.
“Quero que vocês assistam nosso filme, que mostra nossa cultura. Quero que vocês compartilhem muito e nos ajudem a compartilhar, conhecer nosso trabalho” – Aldira Akay.