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Saúde na Floresta

Fiocruz e Ministério da Saúde conhecem tecnologias sociais e discutem caminhos para um SUS adaptado à realidade amazônica

Divisor de seção

Expedição do Projeto Saúde e Alegria percorreu experiências em Santarém, Alter do Chão e na Resex Tapajós-Arapiuns e avançou na construção de uma agenda de cooperação com instituições do território

Uma comitiva da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) esteve no Baixo Tapajós, entre os dias 24 e 27 de agosto, para conhecer experiências desenvolvidas pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA) e por organizações e comunidades parceiras. A programação incluiu visitas ao Ecocentro de Sociobioeconomia, à UBS Fluvial Abaré II, ao Centro Integrado de Saúde e Clima (CICS/SEMSA), à Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e a comunidades da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. A agenda também reuniu gestores, pesquisadores e lideranças comunitárias para discutir os desafios enfrentados pelas populações do território e possibilidades de cooperação entre instituições públicas, universidades e organizações da sociedade civil.

Durante a missão, os participantes conheceram soluções relacionadas à saúde fluvial e ribeirinha, abastecimento e tratamento de água, saneamento ecológico, energias renováveis, sociobioeconomia, segurança alimentar, geração de renda e adaptação às mudanças climáticas. No Centro Experimental Floresta Ativa (CEFA), em Anumã, foram apresentadas tecnologias de saneamento ecológico, abastecimento de água, energia renovável, manejo sustentável, agroecologia e bioeconomia. Na comunidade de Carão, a comitiva conheceu experiências de produção de mel, saneamento e eletrificação comunitária. Em Anã, foram visitadas a UBS da Floresta, iniciativas de piscicultura e produção de ração regionalizada, brigada comunitária de combate ao fogo, reciclagem de resíduos, tratamento de água e atividades de artesanato.

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A visita também permitiu aos representantes do Ministério da Saúde observar estratégias desenvolvidas pelas comunidades para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Eliane Ignotti, da Coordenação-Geral de Vigilância em Saúde Ambiental do Ministério da Saúde, destacou as ações de tratamento domiciliar da água realizadas pelo Saúde e Alegria em parceria com as comunidades. “São experiências bem-sucedidas de tecnologias sociais que impactam a saúde da população”. 

A agenda foi relacionada ao AdaptaSUS, plano do Ministério da Saúde voltado à adaptação do setor às mudanças climáticas. Ignotti resssaltou que essas estratégias que as comunidades já desenvolvem precisam ser consideradas na construção das políticas públicas. “Conhecer essas estratégias, junto às comunidades, ouvir as comunidades, é fundamental para as estratégias que serão implementadas pelo próprio Ministério da Saúde”. 

Entre as experiências visitadas, a UBS da Floresta chamou a atenção da Fiocruz pela forma como articula atendimento em saúde, conhecimento local, participação comunitária e recursos tecnológicos. Valcler Fernandes, vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, definiu a experiência com inspiradora para o Sistema Único de Saúde. “Isso é uma criação daqui do Saúde e Alegria, que pode, de maneira muito concreta, ser apreciada e absorvida pelo Sistema Único de Saúde”. 

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O modelo incorpora recursos tecnológicos considerando as formas de organização e os conhecimentos existentes nas comunidades. Durante a visita, Fernandes citou como exemplo a realização de ecocardiograma com possibilidade de resposta de especialista por telemedicina. “É uma unidade totalmente adequada ao território, onde os indígenas e população local são atendidos no mesmo lugar, onde as vacinas são trabalhadas e discutidas dentro da comunidade, onde os atendimentos e o conhecimento local são aproveitados nessas unidades, associado a algum grau de adensamento tecnológico”.

O momento de escuta das comunidades foi parte da programação. Lideranças indígenas, trabalhadores e trabalhadoras rurais e representantes comunitários participaram de encontros com a comitiva e apresentaram problemas e demandas dos territórios. Raquel Cardoso, liderança comunitária, relatou que as atividades desenvolvidas pelo Saúde e Alegria têm contribuído para ampliar conhecimentos e preparar moradores para situações relacionadas às mudanças climáticas. “Eles sempre estão com a gente informando, falando, fazendo curso para a gente se preparar cada vez mais”.

Eugênio Scannavino, coordenador do Saúde e Alegria, ressaltou que a expedição representa também uma retomada da relação entre o projeto e a Fiocruz, instituição ligada à própria origem do PSA. O projeto foi gestado na Fiocruz na década de 1980, a partir de uma experiência que articulava saúde, educação, hortas, geração de renda, arte e outras ações de desenvolvimento comunitário. A parceria institucional mudou ao longo dos anos, mas a relação entre as instituições permaneceu. “A gente nunca largou a Fiocruz, a Fiocruz nunca nos largou, sempre com muitos amigos, muita parceria. Mas a gente precisava dar um passo adiante, que é consolidar essa parceria em ações práticas”, afirmou.

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Scannavino avalia que o próximo passo deve envolver o acompanhamento e a sistematização das tecnologias sociais desenvolvidas no território. O Saúde e Alegria reúne experiências nas áreas de saúde, água, segurança alimentar, economia da floresta, conectividade e formação de jovens e profissionais, mas, segundo ele, é necessário ampliar a capacidade de medir resultados, documentar processos e compartilhar os aprendizados. “A gente sabe fazer, né? Mas a gente tem que ter apoio para medir, para monitorar, para documentar, para sistematizar a experiência, para poder ensinar outras pessoas, para poder disseminar. Então, a gente só sabe fazer, a gente precisa de alguém para nos ajudar a fazer isso. E aí entra Fiocruz”, explicou.

A intenção é que essa cooperação também contribua para aproximar políticas públicas das condições concretas encontradas nos territórios. Scannavino cita o AdaptaSUS e o Mais Saúde Amazônia como exemplos de políticas e diretrizes que precisam chegar às comunidades de forma adaptada. “Existem muitas diretrizes muito boas e aqui o território está vivo, mas a gente não consegue muitas vezes baixar essas diretrizes de maneira adaptada para o território”, afirmou. Para ele, a Fiocruz pode contribuir na sistematização das experiências e na articulação entre organizações comunitárias, universidade, secretarias municipais e demais instituições que atuam no Baixo Tapajós.

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A missão também abriu novas possibilidades de cooperação entre a Fiocruz e a UFOPA. Durante a visita à universidade, pesquisadores e coordenadores de programas de pós-graduação apresentaram trabalhos em desenvolvimento e discutiram uma agenda conjunta. Fernandes destacou que as instituições deverão avançar na construção de um memorando de entendimento para organizar essa cooperação. A proposta amplia a articulação entre pesquisa, formação e experiências desenvolvidas diretamente nas comunidades.

Nos últimos dias da programação, Fiocruz e Saúde e Alegria realizaram oficinas de trabalho para definir prioridades, encaminhamentos e ações conjuntas. A agenda foi organizada a partir das experiências conhecidas durante as visitas e das demandas apresentadas pelas instituições e lideranças do território.

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