“Realização de um sonho” – Vozes do Gibrié estreiam podcast comunitário no Quilombo de São Lourenço, em Barcarena

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Iniciativa integra a Rede Floresta Digital e reúne jovens e lideranças na produção de conteúdos sobre memória, cultura e defesa do território

O Quilombo Gibrié de São Lourenço, em Barcarena, no Pará, lançou, no sábado (18), o projeto Vozes do Gibrié. A programação marcou a inauguração do estúdio instalado na sede da Associação Quilombola e Indígena Gibrié de São Lourenço (ACOQUIGSAL) e a primeira transmissão do podcast comunitário, criado para registrar histórias, promover o diálogo entre gerações e ampliar a circulação das pautas do território.

A transmissão foi conduzida por jovens que participam da equipe de comunicação do projeto. No primeiro programa, Paulo Afonso entrevistou Mário Santos, presidente da ACOQUIGSAL. A programação também contou com apresentações do Grupo de Carimbó Arirambas e Botos e do Mestre de Carimbó Debubuia.

Aos 18 anos, Thalyson Raynan assumiu a direção da transmissão. Morador do bairro Novo Horizonte, em Barcarena, e estudante do terceiro ano do Ensino Médio, ele passou a integrar o projeto em abril, após ser convidado por Josenite Santos. A experiência anterior em iniciativas de comunicação contribuiu para que assumisse funções relacionadas à filmagem, à organização da equipe e à operação da transmissão.

Antes da estreia, o grupo realizou três testes técnicos. Durante a primeira transmissão, a equipe também precisou administrar ajustes operacionais. “Mesmo com alguns problemas técnicos, conseguimos levar a comunicação, que é a base do projeto: levar a voz do Quilombo Gibrié de São Lourenço, dos outros quilombos de Barcarena, dos mais velhos e dos jovens. É uma forma de dizer que nós também estamos aqui”, afirmou Thalyson.

Para o jovem, a atuação no projeto também possibilitou uma aproximação com as atividades comunitárias e com a história do quilombo. Ele já havia participado de eventos no território, mas passou a manter uma relação mais frequente com os moradores durante a preparação do programa. Thalyson avalia que a participação de outros jovens será necessária para garantir a continuidade da produção. “Vejo o projeto crescendo, com mais jovens participando, além da equipe que já está aqui. Vejo a comunidade sendo representada e tendo mais visibilidade. É isso que desejamos para o futuro”, disse.

Josenite Santos, integrante da administração do Vozes do Gibrié e secretária da associação, acompanhou a organização do estúdio e da equipe. Quilombola, ela relaciona a criação da rádio e do podcast à trajetória de mobilização dos moradores diante das mudanças ocorridas em Barcarena. “Esse lançamento é a realização de um sonho: fazer a voz do Gibrié atravessar fronteiras. Somos um quilombo marcado pela resistência desde o final dos anos 1970. Empreendimentos instalados no município tentaram mudar nosso modo de vida e nossa cultura, mas continuamos aqui, agora dando voz à comunidade também por meio desta rádio”, afirmou.

Matheus Botelho, assessor pedagógico de mídias da Rede Floresta Digital, acompanhou o processo de formação em comunicação comunitária e participou do lançamento. Ele destaca que a primeira transmissão mostrou como os conhecimentos trabalhados durante as atividades começaram a ser incorporados pela equipe local. “Foi muito importante ver a equipe de jovens trabalhando junto com a própria comunidade, entrevistando os mais velhos e promovendo essa troca de saberes. Também estiveram presentes famílias e lideranças das comunidades. Fazer rádio e podcast ao vivo envolve vários processos, e foi possível vê-los experimentar, ajustar as coisas durante a transmissão e fazer com que ela acontecesse da melhor forma possível”, relatou.

Além das entrevistas, o projeto pretende produzir conteúdos sobre cultura, memória, culinária, iniciativas comunitárias, juventude, atuação das mulheres e questões que afetam o território. Os programas serão publicados no canal Rádio Vozes do Gibrié, no YouTube.

“O lançamento do podcast Vozes do Gibrié torna-se um divisor de águas da comunicação comunitária com o uso de uma ferramenta estratégica de transformação sociodigital em defesa do meio ambiente e do fortalecimento da cultura amazônica local do território Quilombo Gibrié. Desse modo, a comunidade pode colocar em prática a sua autonomia e gestão de forma coletiva, participativa e política , engajando cada vez mais jovens, mulheres a fortalecer seus próprios empreendimentos e atividades comunitárias” – Adriane Gama, pesquisadora da Rede Comunitária/Projeto Saúde e Alegria.

https://youtube.com/@radiovozesdogibrie

Comunicação construída no território

O Vozes do Gibrié é uma das iniciativas apoiadas pela Rede Comunitária Floresta Digital, desenvolvida pelo Projeto Saúde e Alegria e pela DW Akademie, com apoio da União Europeia. A rede atua em nove territórios tradicionais da Amazônia, apoiando a implantação de estruturas comunitárias de conectividade e a formação de jovens e lideranças nas áreas de comunicação, cultura digital e gestão das tecnologias.

No Quilombo Gibrié, o processo incluiu a estruturação de um espaço comunitário, a aquisição de equipamentos e o acompanhamento técnico para que os próprios participantes possam administrar as ferramentas de comunicação. A implantação começou em 2025, quando a equipe da Rede Floresta Digital esteve no território para acompanhar a instalação da conectividade e dialogar sobre os usos definidos pela comunidade.

Representantes do Gibrié também participaram de uma formação em mídias comunitárias realizada em Belém, em setembro de 2025. As atividades abordaram produção de áudio, fotografia, audiovisual, soberania digital e uso crítico das tecnologias. Durante a formação, os territórios receberam celulares para iniciar as produções e multiplicar os conhecimentos nas comunidades.

Com a estrutura instalada e uma equipe local em atividade, o quilombo passa a contar com um canal próprio para documentar sua memória, apresentar suas iniciativas e produzir informações a partir das decisões e das experiências de seus moradores.

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