Em aldeias, comunidades e quilombos das regiões do baixo Tapajós, Arapiuns e Amazonas, parteiras comemoram nascimento de crianças em partos normais. Iniciativa do Projeto Saúde e Alegria promoveu encontro de troca de saberes e oficina de qualificação
Quantos bebês você já viu nascer na vida? possivelmente nenhum. Maricleide Silveira de Boa Vista do Tapará, região de várzea do município de Santarém, no Oeste do Pará, já viu mais de mil. Não só viu, como foi a mediadora do nascimento de mil e seis crianças. Ela que já é conhecida na região por auxiliar mães em trabalhos de partos, tem muita história pra contar: “Eu já exerço essa função voluntariamente há 37 anos. Fiz o meu primeiro estágio em 1988 e desde lá venho ajudando voluntariamente na minha comunidade e em toda região. Já tenho completos 1.006 partos e todos feitos com sucesso”.

Maricleide e outras 22 parteiras do baixo Tapajós, Amazonas, Arapiuns e Lago Grande, participaram no período de 26 e 27 do encontro troca de saberes promovido pelo Projeto Saúde e Alegria, por meio do Programa Saúde na Floresta, buscando fortalecer uma rede de suporte básico às gestantes, a partir da formação de quem já exerce o ofício tradicionalmente e é reconhecida como referência em acolhimento e cuidados primários pelas comunidades.

O evento também teve como objetivo a valorização e salvaguarda dos saberes populares das parteiras, integrando-os a orientações técnicas da enfermagem. Uma das metas foi ampliar a capacidade dessas mulheres em identificar situações de risco gestacional, orientando-as sobre quando encaminhar as gestantes para o atendimento, nas unidades de saúde, e orientando quanto a importância do pré-natal. “Elas demonstram o trabalho, como elas desenvolvem o seu trabalho dentro da comunidade. E aqui elas têm a oportunidade também de receber conhecimentos e identificar gestantes de risco” – destacou a enfermeira do Projeto Saúde e Alegria, Marcela Brasil.
Durante o encontro, cada parteira recebeu um kit com equipamentos que devem qualificar os trabalhos: medidor de pressão digital, termômetro digital, detector fetal, fita métrica, gestograma e um kit de energia solar portátil.
“São verdadeiras heroínas. São as pessoas que cuidam lá nas comunidades, fazem os partos quando não tem ninguém, muitas vezes sozinhas, sem apoio. As parteiras são realmente quem estão lá no dia a dia cuidando de muitas mães que muitas vezes não fazem pré-natal, muitas vezes não vão no posto, e essas parteiras estão lá. Estamos apoiando para que elas possam ajudar melhor essas gestantes, incentivando elas a fazerem o pré-natal no posto, identificando se tem sinais de risco para poder encaminhar para o posto ou encaminhar para Santarém, apoiando elas para se fortalecerem enquanto uma rede de parteiras” – Eugênio Scannavino, médico fundador do PSA.

Sirlene Tapajós, da Ajamuri, no Lago Grande, acumula 375 partos realizados e relatou a distância e a falta de acesso das gestantes aos serviços de saúde na cidade como os principais desafios enfrentados. Pra ela, a formação foi importante: “Foi muito valioso porque a gente ganhou alguns kits que vão ajudar a gente a trabalhar com mais segurança, na hora da mulher ganhar bebê. No interior há uma carência desses itens que nós recebemos hoje”.
Da comunidade Água Fria de Baixo, na região do Lago Grande, Raibetânia Silva Ferreira atua como parteira há 17 anos e já realizou dez partos. Ela descreveu a sensação do ofício: “É muito gratificante. E que no final deu tudo certo, tanto faz com a mãe e com o bebê, né? Devido aos lugares que são distantes, não é na comunidade às vezes, são lugares distantes, às vezes é à noite, é dificuldade no transporte, então isso daí é uma dificuldade que a gente tem entre a localização”. Sobre o curso, completou: “O curso foi gratificante. É um leque que foi aberto, que foi renovado. A gente não tem muito apoio, acompanhamento das UBSs”.
Domingas Lopes, da Vila Brasil, no Rio Arapiuns, aos 62 anos, carrega uma trajetória de 32 anos como parteira, com 41 partos realizados. Ela lembra de um episódio marcante: o dia em que fez um parto dentro de uma ambulancha no Rio Arapiuns. “Essas 41 crianças que eu consegui fazer o parto, eu sou uma mulher feliz e eu me sinto muito mais feliz hoje com este novo conhecimento. A minha mãe fez para mais de 500 partos. A minha mãe morreu com 84 anos. Quando ela saía de uma casa, já tinha outra chamando ela. E eu vi uma vez a minha mãe fazer um parto. Digo, é comigo. Deixa comigo que essa experiência eu fico. Esta, missão, né?”.
Ana Maria Mota, da comunidade Cachoeira do Aruã, no Rio Arapiuns, também relatou como começou a realizar os 35 partos realizados ao longo de 22 anos: “Eu comecei desde 2003 que outras parteiras, já anciãs, me chamaram para ajudar o parto porque ela já estava avançada. Aí elas diziam para mim que eu ia assumir aquela função delas. E realmente eu fiquei assumindo a função delas. Para mim é tão gratificante fazer um parto, ajudar uma criança a nascer, passar conforto, paz para a família e para a mãe que está ali com dor para dar luz à criança. É muito emocionante, né? É uma responsabilidade total”.
As parteiras também receberam kits portáteis de energia solar para carregar os equipamentos doados. O sistema é uma doação do Programa de Infraestrutura Comunitária do PSA com apoio da Fundação Schneider. A capacitação é fruto da parceria do Projeto Saúde e Alegria com o Instituto Tecendo Infâncias e Van Leer.

“São verdadeiras heroínas. São as pessoas que cuidam lá nas comunidades, fazem os partos quando não tem ninguém, muitas vezes sozinhas, sem apoio. As parteiras são realmente quem estão lá no dia a dia cuidando de muitas mães que muitas vezes não fazem pré-natal, muitas vezes não vão no posto, e essas parteiras estão lá. Estamos apoiando para que elas possam ajudar melhor essas gestantes, incentivando elas a fazerem o pré-natal no posto, identificando se tem sinais de risco para poder encaminhar para o posto ou encaminhar para Santarém, apoiando elas para se fortalecerem enquanto uma rede de parteiras” – Eugênio Scannavino, médico fundador do PSA.




