Imersão nas comunidades possibilita que estudantes de graduação em medicina conheçam desafios para atendimento qualificado na Amazônia
Estudantes de medicina da Universidade do Estado do Pará (UEPA) e da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) participaram de uma atividade de imersão promovida com o apoio do Projeto Saúde e Alegria nas comunidades Suruacá, Parauá, Boim e Anumã na Resex Tapajós-Arapiuns. A visita aproximou os futuros médicos da realidade ribeirinha e garantiu que eles vivenciassem na prática as particularidades amazônicas, após a turma da UEPA ter sido impedida de embarcar no hospital fluvial Abaré, atualmente sob responsabilidade da UFOPA. O PSA, inspirado na história do médico Eugênio Scannavino, que em 1985 veio para a Amazônia e percebeu a necessidade das comunidades, viabilizou a expedição para que os estudantes não se formassem sem esse contato direto.
Eugênio Scannavino recordou a trajetória construída com as comunidades e a relevância do aprendizado coletivo. Ele destacou que “essas ações que o Saúde e Alegria desenvolve em toda região já há bastante tempo são ações de mobilização, de educação e saúde, de promoção, de prevenção junto com as comunidades. […] É uma experiência muito importante para os estudantes, porque eles percebem como é a saúde no território”. O médico afirmou ainda que, depois de tantos anos, sente mais gratidão do que dever cumprido: “A gente tem muito mais a agradecer a essas comunidades do que elas agradecerem o que a gente faz”.
Ana Carolina Porto, médica infectologista e professora da UEPA, destacou que o estágio em saúde coletiva inclui a vivência em comunidades e aldeias remotas, onde a dificuldade de acesso torna o atendimento essencial. Segundo ela, “grande parte da nossa população são populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas que vivem no interior. […] Quando o estudante sai do hospital, vem para cá e conhece a realidade que as pessoas vivem, isso qualifica o atendimento deles em saúde. Eles conseguem entender melhor o contexto biopsicossocial do paciente e não só a doença específica”. Ela lembrou que, apesar do problema que impediu o uso do Abaré, a parceria com o PSA e com a Secretaria Municipal de Saúde garantiu que a população não ficasse sem assistência.
Para Davi Justo, acadêmico do 12º período da UEPA, a experiência fortaleceu o compromisso social dos futuros profissionais: “Nós temos que devolver para a sociedade aquilo que ela entregou para a gente. […] É muito feliz essa oportunidade onde nós podemos, além de trazer saúde para os rincões da Amazônia, também levar para a nossa vida pessoal os aprendizados de um atendimento onde o mais necessitado é aquele que mais precisa da nossa mão”.
A primeira turma de medicina da Ufopa participa das ações desde o primeiro semestre. Beatriz Leal, estudante da Universidade Federal, contou que o contato com a comunidade muda a perspectiva da turma: “A gente se sente bastante abraçado pela comunidade e isso acaba trazendo a gente para ela”. Rian Portela acrescentou que a vivência quebra paradigmas: “A formação muda muito a partir do momento em que a gente tem contato desde cedo. A gente sabe de fato aonde ir e o que fazer desde o começo”.
João Vitor, também da UFOPA, disse que a experiência é fundamental para a formação: “Ela mostra como é a realidade dentro do contexto da Amazônia e nos torna seres humanos, médicos, profissionais melhores, fazendo que a gente enxergue cada detalhe, cada diferença do nosso contexto para o contexto das pessoas que vivem aqui, entendendo que nossos conhecimentos não são para sobrepor aos deles, mas para juntos montarmos um conhecimento que beneficia a comunidade”.
Letícia Oliveira, do primeiro ano da UFOPA, ressaltou o aprendizado prático: “A saúde não é só o que a gente estuda, o que a gente vê num consultório, mas sim a prática do dia a dia. A gente conhece a realidade das outras pessoas, aprende um pouco mais da cultura delas e tenta arranjar um meio termo, porque a saúde não é só teoria, mas também o que eles vivenciam”.
Os moradores reforçaram a importância da presença dos estudantes. Edison Rodrigues, da comunidade Anumã, afirmou: “Quando vem uma junta de médico assim que nem do Saúde e Alegria ou de uma outra ONG, sempre é bem-vindo, porque eles vêm tratar da saúde nossa, que temos dificuldades que não são supridas pelo Abaré”.
Palmira Alves Alcântara disse que a visita renova expectativas: “É uma alegria muito grande receber a visita desses estudantes e eu acredito que eles vão se informar para que um dia possam voltar para nossa comunidade”. Jaceli Francisca dos Santos Alves relatou que os encontros já a fizeram aprender sobre prevenção de doenças graves, como câncer de colo de útero e de pele. Tália Lopes Pinto, da Aldeia Americana, destacou a agilidade e atenção do atendimento: “Eu consegui ser atendida, peguei remédio pro meu filho que ele estava precisando e achei muito bom mesmo, muito importante pra comunidade”.
Solano Lima, liderança comunitária, vê na presença dos discentes uma possibilidade de fixação de médicos: “Quem sabe daqui quatro, cinco anos um deles não vai morar aqui para nos atender. A vinda deles aqui conhecer o Suruacá, tenho certeza que vai fazer com que eles tenham vontade de vir outras vezes”.
Isabela Buchare, enfermeira da UBS Suruacá, ressaltou o impacto pedagógico da iniciativa: “O projeto Saúde e Alegria traz esperança para a comunidade, traz ensinamento de uma forma lúdica, divertida, simples, que é fácil de entender”. Para Rodrigo Rodrigues, coordenador do curso de Medicina da UFOPA, a atividade faz parte do programa Vivências na Amazônia, que desde o início do curso expõe os estudantes à realidade local para formar profissionais conscientes e capazes de atuar na região.

A imersão também envolveu atendimentos de diferentes especialidades, rodas de conversa, mobilização comunitária e orientação em saúde. O apoio do Saúde e Alegria assegurou que tanto as comunidades quanto os estudantes não fossem prejudicados pelo impasse administrativo envolvendo o Abaré. “A gente sempre acreditou na importância de integrar assistência médica e educação em saúde na Amazônia. Daí surgiu o Abaré há 20 anos, que implantamos com apoio da organização holandesa Terre des Hommes, em parceria com a Prefeitura e organizações da região”, explica Eugênio Scannavino.
O médico-fundador ressalta ainda que “As universidades sempre estiveram presentes com atividades de extensão, ensino e pesquisa. Quando esse modelo virou política pública, lutamos para que a embarcação permanecesse no Tapajós como patrimônio público, na forma também de um barco-escola, um difusor de boas práticas para disseminar pras demais unidades. Por isso todo nosso esforço para destinar o barco à UFOPA. No que pudermos ajudar, as universidades e os estudantes de Santarém sabem que podem contar conosco”, complementa Scannavino, sempre reforçando que a convivência entre estudantes, profissionais e comunidades demonstra que a saúde na Amazônia é construída de forma coletiva, envolvendo conhecimento técnico, sensibilidade social e respeito aos saberes locais.






