Mulheres do baixo Tapajós se preparam para levar suas vozes à COP 30

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Encontro “Nossa Voz é Nosso Poder – Mulheres do Tapajós na COP 30” reuniu lideranças da região do Tapajós para discutir estratégias de participação e incidência nos debates sobre mudanças climáticas

Vinte mulheres de aldeias, quilombos e comunidades do baixo Tapajós participaram nos dias 2 e 3 de outubro, no Chico Roque em Santarém de um encontro que teve como proposta fortalecer o protagonismo das mulheres em seus territórios e ampliar suas vozes rumo à conferência climática que será realizada em Belém. Foram dois dias de atividades formativas e lúdicas, conduzidas por uma equipe de mediadoras e facilitadoras que já vinham acompanhando o processo de mobilização iniciado em edições anteriores.

A programação liderada pelo Projeto Saúde e Alegria no âmbito do Projeto Mulheres Empreendedoras da Floresta, com apoio da União Europeia, Fundação Konrad Adenauer, Fundação Toyota e Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém incluiu dinâmicas participativas, rodas de conversa e oficinas criativas para construir uma agenda coletiva das mulheres amazônicas na COP 30. No primeiro dia, o grupo trabalhou o tema “Reconhecendo nossos corpos na COP”, com a exibição de vídeos, partilha de experiências e a pergunta provocadora: “O nosso corpo cabe na COP?”.

No segundo dia, sob o tema “Construindo nossa COP”, as participantes imaginaram a conferência a partir de suas próprias perspectivas, criando narrativas poéticas, cartografias e mensagens simbólicas que representarão o Tapajós durante o evento global. “Esses conceitos que parecem distantes são vivenciados no dia a dia dessas mulheres. Quem está na floresta vive de forma ainda mais forte as mudanças do clima. E principalmente as mulheres, pela sobrecarga de trabalho e questões de saúde”, disse Olívia Beatriz, coordenadora do programa Mulheres Empreendedoras da Floresta. “É um momento importante para unir essas mulheres e estar nos espaços de decisão com estratégia, comunicação e promoção do bem-estar.”

Durante as atividades, foram utilizados materiais didáticos da Central da COP, uma iniciativa do Observatório do Clima que busca traduzir e simplificar conceitos sobre mudanças climáticas e processos de negociação internacional. Os conteúdos ajudaram a aproximar o tema da realidade das participantes e inspiraram a criação de um espaço de apoio às mulheres tapajônicas na Central da COP, durante o evento em Belém, onde o grupo pretende desenvolver atividades formativas e de diálogo direto com outros movimentos e organizações ambientais.

Da Flona Tapajós, Niraci Souza dos Santos contou que participa do grupo de biojoias Natureza Viva e vai levar suas peças à conferência. “Queremos mostrar para o mundo que o nosso sustento vem desse trabalho feito com as nossas mãos. Precisamos da floresta em pé, porque tiramos dela a matéria-prima para o nosso artesanato. Vamos para a COP 30 defender o nosso território e precisamos que alguém nos escute.”

A agricultora Irene Domingues, da Cooperativa Coofam, em Mojuí dos Campos, destacou a luta da agricultura familiar frente ao avanço do agronegócio. “Na minha região tem lugar que não tem igreja, não tem escola, só o céu e a terra, porque o agronegócio tomou conta. Indo para a COP, queremos saber como vamos viver nessa situação. A água dos igarapés está contaminada. Queremos buscar melhoria para o nosso município.”

A educadora popular Suelen Vinhoto explicou que o grupo produziu um estandarte bordado com mensagens das mulheres amazônicas para levar à conferência. “O bordado vai para além do campo doméstico, ele é político e poético. Vamos levar nossas vozes em forma de arte, falando das violências sofridas pelos rios, pelos nossos corpos e pelos territórios. Essas mulheres vão continuar compartilhando saberes e criando juntas mesmo depois da COP.”

Para Saraí Cardoso, artesã e cooperada da Turiarte, participar do processo é uma forma de mostrar alternativas sustentáveis de geração de renda. “Trabalhamos com a palha de tucumã sem desmatar. Queremos mostrar que é possível viver da floresta mantendo ela em pé. Esse é o nosso jeito de contribuir com o debate sobre mudanças climáticas.”

A pescadora Lúcia Maria Castro Lima, do Lago Grande, reforçou que a presença das mulheres representa o território. “Mesmo sem estar nas mesas de decisão, estamos lá gritando pela nossa região. O clima mudou, está mais quente, e há invasão de mineradoras. Precisamos estar lá para defender nossa agricultura familiar e nossa pesca, que enfrenta dificuldades com invasões de outros municípios.”

Como mediadora dos encontros, Tainá Rio Negro, jornalista e mestre em antropologia social, destacou que o processo formativo envolveu mais de 90 mulheres. “Esses encontros construíram um espaço de diálogo entre mulheres amazônicas, fortalecendo suas vozes e seus fazeres. Elas mostram que já fazem economias sustentáveis e empreendem dentro dos territórios sem destruir a floresta. O nosso papel foi fortalecer o que elas já fazem e mostrar que seus saberes constroem o futuro que queremos.”

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