Primeiro dia de seminário sobre Saúde e clima na Amazônia inicia diálogo coletivo unindo comunidades, governo e ciência em Santarém

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O primeiro dia do seminário Saúde e Clima na Amazônia – Tecnologias Sociais e Adaptação para Comunidades Tradicionais reuniu, em Alter do Chão, representantes de diferentes esferas da gestão pública, movimentos sociais, universidades e organizações comunitárias para debater como enfrentar os impactos das mudanças climáticas a partir das realidades locais.

Na abertura, lideranças indígenas, quilombolas, ribeirinhas e representantes do Ministério da Saúde, do Governo do Estado e da Prefeitura de Santarém destacaram a importância de integrar políticas públicas, saberes ancestrais e tecnologias sociais no enfrentamento da crise ambiental que já afeta diretamente a saúde dos povos da floresta.

O médico Eugênio Scannavino Neto, fundador do Projeto Saúde e Alegria (PSA), destacou a representatividade do encontro como o símbolo da necessidade de colaboração entre comunidades e instituições.“Com as mudanças climáticas, a saúde é quem bate à porta do mundo inteiro. Na Amazônia, isso se traduz em secas, cheias, perda da pesca e da agricultura. Por isso estamos juntos — governo, universidades, movimentos — pensando tecnologias sociais que apoiem as comunidades neste novo momento de adaptação. Saúde é tudo: água, educação, comunicação, bem viver”, afirmou.

O evento contou com a presença do Ministério da Saúde, da Fiocruz, da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), de gestores municipais e estaduais e de lideranças de base, refletindo o caráter participativo do seminário.

Na mesa “Políticas de Saúde para a Amazônia”, a pesquisadora Michelle Rocha, da Fiocruz, reforçou que não existe uma única Amazônia. “A região do Arco do Desmatamento, o Oeste do Pará e o Amazonas profundo têm realidades distintas. Cada uma exige políticas específicas. Por isso, unir o conhecimento técnico da academia e a experiência do PSA e dos movimentos sociais é fundamental para que as ações realmente façam diferença na vida das pessoas”, destacou.

Entre as experiências compartilhadas, o Frei Messias apresentou o projeto Farmácia Viva, que resgata práticas tradicionais de cura com plantas medicinais. “É o reencontro com a autonomia dos povos da Amazônia, que sempre souberam cuidar da saúde com a floresta. Transformar esses saberes em medicamentos orgânicos é valorizar uma tecnologia da vida, que nasce do território”, explicou.

Na mesma linha, o quilombola José Luiz Souza, da Malungu, falou sobre as tecnologias ancestrais que sustentam os modos de vida tradicionais. “Nossas tecnologias vêm da terra e do território. Elas passam de geração em geração — do alimento ao cuidado, da horta à casa. São saberes que não precisaram da universidade para existir, mas que mantêm nossas comunidades vivas”, afirmou.

A coordenadora do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA), Margareth Maytapú, lembrou que a defesa da saúde está diretamente ligada à luta pelos territórios. “Sem território, não há saúde. E sem saúde, não há território. As comunidades indígenas, quilombolas e extrativistas estão na linha de frente dos impactos do garimpo, do mercúrio e do desmatamento. Estar aqui é ecoar nossas vozes e buscar melhorias para quem vive na ponta”, destacou.

A técnica Jaqueline Martins, do Ministério da Saúde, ressaltou a atuação do Grupo de Trabalho do Mercúrio, voltado à vigilância das populações expostas. “Estamos atuando para garantir atenção integral às comunidades afetadas pelo garimpo ilegal e pela contaminação química. A saúde, o clima e o território estão totalmente conectados — e esse evento mostra que é possível agir de forma integrada”, disse.

A promotora Lilian Braga, do Ministério Público do Pará, destacou a parceria histórica com o Projeto Saúde e Alegria e a importância do seminário como espaço de articulação. “A saúde na Amazônia não pode ser um pacote pronto trazido de Brasília. Precisa nascer da experiência e do diálogo com os povos ribeirinhos, indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais. Ver essas soluções sendo apresentadas e debatidas aqui é motivo de esperança”, afirmou.

Para Neriane Nascimento, pesquisadora da ONG Sapopema, o debate reforça a urgência de soluções construídas com os próprios povos. “Falar de saúde é falar de vida e de enfrentamento. Estamos aqui para pensar estratégias que fortaleçam nossos territórios diante das ameaças do garimpo e da contaminação ambiental”, disse.

Sebastiana Rebelo Viana, do setor de saneamento do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), lembrou que o acesso à água potável é um dos pilares da sobrevivência.“Sem água, sem floresta e sem ar limpo, a gente não vive. Estamos aqui para buscar parcerias e soluções para levar qualidade de vida às aldeias”, destacou.

Encerrando as falas, o vice-prefeito de Santarém, Carlos Martins, reforçou o compromisso da gestão municipal com o diálogo e a cooperação. “Essas tecnologias sociais só fazem sentido quando respeitam os territórios e são geridas por quem vive neles. O PSA tem sido um grande parceiro da prefeitura para transformar a vida das comunidades”, afirmou.

A programação segue neste sábado com uma vivência em campo na comunidade de Anã, em Alter do Chão, que marca o segundo dia do seminário Saúde e Clima na Amazônia – Tecnologias Sociais e Adaptação para Comunidades Tradicionais. O dia será dedicado à troca prática entre participantes e comunidades, com visita às experiências de tecnologias sociais apoiadas pelo Projeto Saúde e Alegria e parceiros.

A programação inclui um momento solene de entrega da UBS da Floresta, com demonstração de equipamentos e plantio da Farmácia Viva, seguido de apresentação cultural do Gran Circo Mocorongo e tour pelas iniciativas comunitárias, como criação de peixes e abelhas nativas, sistema de água com energia solar, artesanato de tucumã, brigadas voluntárias e rádio comunitária Vozes pelo Clima. O encerramento está previsto para o início da tarde, após o diálogo com o Ministro da Saúde Alexandre Padilha e o retorno a Alter do Chão.

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