Depois de anos de racionamento, bairro União celebra a chegada da água em Alter do Chão

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Microssistema de abastecimento garante acesso regular à água potável para centenas de famílias na periferia do distrito, em meio às estiagens cada vez severas

Em Alter do Chão, cartão-postal do Pará cercado pelas águas do Tapajós, a falta de água potável sempre foi uma contradição vivida por quem mora fora do circuito turístico. No bairro União, área periférica do distrito, essa realidade muda com a inauguração do sistema de abastecimento de água, resultado de uma articulação entre o Projeto Saúde e Alegria e a Coca-Cola Brasil, em parceria com a associação de moradores.

A entrega realizada na última sexta-feira (12), representa o fim de uma rotina marcada por racionamento, poços rasos contaminados e longos períodos sem água, agravados nos últimos anos pelas estiagens mais intensas na região amazônica. “As famílias daqui passaram anos vivendo uma situação de agonia, racionando água, enquanto as secas só foram piorando. Água não é favor, é direito”, destacou Caetano Scannavino, coordenador do Projeto Saúde e Alegria.

Morador de Alter do Chão, Caetano destacou o simbolismo da entrega acontecer justamente onde vive. Segundo ele, embora o PSA atue majoritariamente em comunidades ainda mais isoladas, a gravidade da situação no bairro União exigiu uma resposta urgente. “Era um sonho antigo da comunidade estruturar um sistema de água de verdade. E, se fosse para fazer, tinha que ser bem feito.”

O novo microssistema foi projetado para garantir segurança hídrica a longo prazo. O poço tem mais de 120 metros de profundidade, com estrutura em concreto e capacidade de armazenamento superior a 40 mil litros, somando-se às caixas instaladas nas residências. Todo o sistema opera com energia solar, reduzindo custos e aumentando a sustentabilidade.

“Não é só uma escolha ambiental, é também econômica. A conta de energia sempre foi um peso para a associação e para os moradores. Com a energia solar, isso muda radicalmente”, explicou Caetano. “O que chega aqui é dignidade, saúde e alegria para um povo guerreiro, que sustenta Alter do Chão longe dos holofotes.”

O acesso à água potável é um dos pilares históricos do Projeto Saúde e Alegria. Para Rodrigo Souza, coordenador do núcleo de acesso à água e saneamento do PSA, a inauguração reafirma esse compromisso. “O acesso à água é um direito fundamental. Hoje, esse microsistema traz impacto direto e indireto para mais de 3 mil pessoas que vivem no bairro União.” Além da infraestrutura, Rodrigo ressaltou a importância da gestão comunitária para garantir que o sistema seja resiliente e duradouro. “A tecnologia sozinha não sustenta um sistema de água. É a organização da comunidade que garante que ele funcione por muitos anos.”

O Presidente da Associação de Moradores do bairro União, Marcos Mota acompanhou de perto décadas de dificuldades. Ele lembra que houve períodos em que a água chegava apenas uma vez por semana. “Teve época em que as famílias precisavam sair do bairro para se higienizar. No verão, os poços secavam, a água ficava contaminada e as crianças sofriam com diarreia.”

Hoje, o cenário é outro. “O verão passou e o poço não secou. A água é de boa qualidade, chega às casas e mudou completamente a vida das famílias”, afirmou. Cerca de 178 famílias já são atendidas diretamente pelo sistema, e outras estão migrando para o novo abastecimento por conta da qualidade da água.

Ele também destacou a diversidade do bairro. “Aqui é território Borari, mas temos Arapiún, Arapiacá, Maruá, ribeirinhos e quilombolas. Esse sistema atende todos esses povos. Água é para todos.”

Moradora do bairro há mais de duas décadas, Roseneide resume a transformação. “Antes a água vinha uma vez por dia, às vezes só de manhã ou só de tarde. Hoje, a gente abre a torneira e tem água. Melhorou quase 100%.” Ela conta que a luta foi longa e coletiva. “Foram anos esperando uma resposta. Quando a notícia chegou, foi uma felicidade. Hoje temos água abundante e isso é qualidade de vida.”

Lília Maria, conhecida como Vera, que mora no bairro há mais de 25 anos também comemorou. “Quando cheguei, a gente tirava água em poço manual e lavava roupa no igarapé. Era muito difícil, principalmente com criança pequena. Hoje mudou tudo. Eu não reclamo da água.”

Carlos Dombroski, que atua na área de gestão comunitária do PSA, reforçou que o desafio agora é coletivo. “Ter água é um direito, mas manter o sistema funcionando exige deveres. A comunidade organizada é o que garante que esse sistema dure décadas.” Com experiência em outros sistemas implantados pelo PSA que funcionam há quase 30 anos, Carlos avalia que o bairro União reúne condições importantes para o sucesso. “Aqui existe associação, participação e compromisso. Isso faz toda a diferença.”

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