Sistema com poço profundo de 152 metros e bombeamento híbrido solar-diesel foi implantado por meio do Programa Cisternas com participação de organizações comunitárias e parceiros institucionais
A comunidade Escrivão, localizada no município de Aveiro, passou a contar com um sistema de abastecimento de água que leva água encanada diretamente às casas de 64 famílias. A estrutura inclui um poço profundo de 152 metros e um sistema híbrido de bombeamento movido por energia solar e diesel, permitindo a distribuição contínua de água na comunidade e na área da aldeia, além da construção de banheiros.
A iniciativa integra o Programa Cisternas, política pública vinculada ao governo federal e executada na região pelo Projeto Saúde e Alegria, com participação de organizações do território e apoio da Fundação Coca-Cola Brasil. A entrega do sistema ocorreu no dia 12 de março e reuniu moradores, lideranças comunitárias e representantes das instituições envolvidas. O equipamento passa a atender famílias que historicamente enfrentavam dificuldades para acessar água nas casas, principalmente em períodos de estiagem e em áreas com relevo acidentado.
A construção da infraestrutura exigiu transporte de materiais e trabalho coletivo dos moradores, que participaram das etapas necessárias para que a água chegasse às residências. O presidente da comunidade, Fábio Marques Braz, descreve o momento como a realização de uma demanda antiga. “Isso foi um sonho desde há muito tempo. E hoje esse sonho está sendo realizado na vida de muitos moradores.” O envolvimento direto das famílias aparece como parte central do processo que permitiu instalar a rede de distribuição e as estruturas do sistema. “Foi um trabalho muito árduo, muito sacrificoso, mas hoje nós temos a vitória.” A manutenção do sistema também passa a ser responsabilidade compartilhada entre os moradores. “Isso aí para nós vai ser a nossa criança, a gente vai cuidar desse microsistema de água para o resto da vida.”
A entrega do sistema faz parte de um conjunto de tecnologias sociais implantadas em comunidades rurais e territórios tradicionais por meio do Programa Infraestrutura Comunitária do Projeto Saúde e Alegria. A execução regional envolve articulação entre organizações comunitárias, instituições de base e apoiadores institucionais. Rodrigo Souza, gestor de núcleo do programa de infraestrutura comunitária do PSA, descreve a entrega como a etapa final de um processo que combina política pública e parcerias locais. “Hoje nós estamos aqui na comunidade do Escrivão, pertencente ao município de Aveiro, fazendo a entrega dessas tecnologias sociais, que é uma política pública do governo federal vinculada ao MDS.”
A estrutura instalada inclui, além da rede de água, equipamentos domésticos voltados às condições sanitárias das famílias. “Nada disso sairia do papel se a gente não tivesse o apoio das instituições e dos apoiadores estratégicos.” A perfuração do poço profundo contou com apoio da Fundação Coca-Cola. “Além da estrutura que a gente observa aqui atrás, também entrega um banheiro, entrega uma pia, entrega também um filtro para dar mais dignidade a essas famílias.”
A dificuldade de garantir abastecimento regular de água na comunidade está ligada às características geográficas do território, onde o relevo dificulta a distribuição por gravidade e exige sistemas estruturados de captação e bombeamento. O técnico em organização comunitária e gestão territorial do Projeto Saúde e Alegria, João Carlos Dombróski, acompanha o processo de organização comunitária na região e relata que a demanda pelo sistema aparece há muitos anos nas discussões locais. “Aqui é uma área montanhosa e a comunidade sempre esteve lutando para ter um sistema de água onde levasse água para todos os moradores, todas as famílias.”

A perfuração do poço profundo permitiu ampliar a capacidade de captação e garantir a distribuição para todas as residências. “Hoje eles têm um poço profundo, com captação de água muito boa, e um sistema que leva água para todas as famílias e para a área da aldeia.” A entrega representa o resultado de um processo prolongado de reivindicação e organização local. “Foi uma luta muito séria que eles tiveram e com certeza hoje estão tendo esse privilégio de ter água nas torneiras.”
A mobilização para implantação do sistema envolveu também organizações comunitárias e indígenas que atuam no território Tapajós-Arapiuns. A presidente da Tapajoara, Maria José Caetano, relata que a busca por projetos de infraestrutura básica nas comunidades ocorre há décadas e envolve articulação entre associações, comunidades e instituições públicas. “Desde 97 a gente luta para conseguir algo para as comunidades.” Experiências anteriores de abastecimento foram implantadas, mas não conseguiam atender todas as famílias da comunidade. “Conseguimos em 2022 um projeto de microsistema, mas não dava condições para todo mundo e hoje nessa nova versão através do projeto cisternas conseguimos fazer uma execução nas pequenas aldeias e comunidades.”
A implantação do sistema amplia o acesso à água nas casas e influencia diretamente o cotidiano das famílias. “Esse sistema de água vai trazer muita benfeitoria para as comunidades, principalmente em relação à saúde.” O processo contou com participação direta das comunidades e das organizações locais. “As comunidades participaram ativamente junto com as parcerias, PSA, Cita, Tapajoara e até mesmo a própria prefeitura.”
A mudança no cotidiano das famílias aparece principalmente nos períodos de estiagem, quando a escassez de água se tornava mais intensa. O cacique Antônio Pereira relata que a dificuldade era recorrente antes da implantação do sistema. “A nossa dificuldade era um pouco difícil, principalmente na parte da seca, que a dificuldade era maior para nós.” Com a estrutura em funcionamento, a água passa a chegar diretamente às casas, reduzindo deslocamentos para coleta e ampliando o acesso ao recurso para consumo e atividades domésticas. “Agora com esse novo abastecimento vai melhorar bastante a nossa vida, como já está melhorando.”

A entrega também foi acompanhada por organizações indígenas que atuam no território. O presidente do Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns, Lucas Tupinambá, define a inauguração como um momento que marca a concretização de uma reivindicação antiga da comunidade. “É um marco histórico, a construção e efetivação do projeto cisterna, levando água potável diretamente às famílias que realmente estão necessitando.” A entrega formal do sistema encerra uma etapa da mobilização comunitária e abre um novo período de gestão local da estrutura. “É uma luta histórica aqui da aldeia e comunidade Escrivão e hoje se concretiza com a inauguração e a entrega para que eles possam fazer uso e zelar desse patrimônio que é deles.”












