Evento encerra ciclo e aponta continuidade de redes e iniciativas lideradas por mulheres em Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos
O auditório do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Santarém recebeu, nesta terça-feira (15), o seminário de encerramento do projeto Mulheres Empreendedoras da Floresta, desenvolvido em parceria com o Projeto Saúde e Alegria com apoio da União Europeia. A atividade reuniu representantes de comunidades, associações,coletivos e organizações parceiras que participaram da iniciativa ao longo de quatro anos. O encontro apresentou resultados, avaliações e relatos das participantes, consolidando um processo que envolveu formação, apoio a empreendimentos e articulação em rede. A programação também incluiu a socialização de diagnósticos realizados no início e ao final do projeto, permitindo observar transformações nas organizações envolvidas.

A socialização da avaliação final do projeto trouxe dados que ajudam a dimensionar os impactos alcançados ao longo do período. A análise foi conduzida por uma avaliação externa da empresa Carnaúba, que comparou diagnósticos realizados em 2022 e em 2025, permitindo observar o avanço das organizações apoiadas. Entre os resultados, 95% das pessoas entrevistadas relataram melhora direta na qualidade de vida, enquanto 89% apontaram aumento na renda familiar. Já 90% afirmaram se sentir mais capacitadas para gerir seus negócios e assumir espaços de liderança.
A trajetória do projeto foi marcada por processos formativos voltados ao cooperativismo, associativismo e organização produtiva. A presidente do sindicato, Ivete Bastos, destacou que o projeto teve vários momentos importantes. “É um projeto que deixa muita saudade e deixa frutos”. Ao longo do processo, foram abordados temas como gestão financeira, direitos e participação política. A experiência também ampliou a presença das mulheres em espaços organizativos, com impactos percebidos para além das metas iniciais. “Então foi possível quebrar vários paradigmas de poder entender a participação da mulher, principalmente nos ambientes aonde ela ainda não fazia muita parte”, afirmou.
Os dados também apontam crescimento na base social das 7 organizações participantes do diagnóstico: o número de pessoas, cooperados e associadas passou de 620, em 2022, para 862 em 2025, um aumento de 40%. A participação feminina também se ampliou, saindo de 350 para 565 mulheres, representando hoje 61% dessa base. Nos espaços de decisão, a presença das mulheres cresceu de 67% para 91%. Entre os jovens, a participação em cargos de liderança passou de 12% para 21%, indicando avanço, ainda que o desafio de ampliar essa presença permaneça.
A construção coletiva foi um dos elementos centrais do projeto, inclusive na organização do seminário. A coordenadora de monitoramento do projeto , Olívia Beatriz, ressaltou que o processo resultou na formação de vínculos entre participantes de diferentes territórios, consolidando uma rede de apoio. “Uma rede de mulheres, não uma rede formal, mas uma rede de apoio, de solidariedade, de autocuidado entre as mulheres tapajônicas, mulheres empreendedoras da floresta, foi consolidada”, explicou. A avaliação externa e os diagnósticos comparativos indicaram amadurecimento das organizações ao longo do período.

As associações participantes destacaram os efeitos práticos do projeto em suas atividades. Marilene Rocha, coordenadora da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Santarém, relatou que o apoio recebido permitiu investimentos definidos coletivamente, com desdobramentos nas atividades produtivas. “Nós conseguimos realizar e trabalhar com o projeto e finalizar com saldo muito positivo”, afirmou. A experiência também foi associada ao fortalecimento da autonomia das mulheres nos territórios.
A dimensão formativa incluiu ações voltadas à escuta, ao autocuidado e à preparação das participantes para assumir protagonismo. A técnica em educação Ana Maria afirmou que “ em 2022, foi plantada uma sementinha e hoje a gente está aqui nesse momento colhendo os frutos dessa semente que nós plantamos lá atrás”. Durante a semana do seminário, encontros reuniram mulheres para troca de experiências e preparação do encerramento. O processo foi descrito como parte de um ciclo que se conclui, mas que abre novas possibilidades. “Hoje a gente tá fazendo esse encerramento que é justamente apresentar as principais atividades, né, e os resultados que a gente obteve durante esses 4 anos”, disse.
Entre as juventudes, o projeto também ampliou espaços de participação. Kelviane Andrade, representante do território PAE Lago Grande, afirmou que percebeu o fortalecimento da juventude nas nossas organizações. A presença de jovens nas atividades foi apontada como um dos elementos que contribuíram para a continuidade das ações nos territórios, especialmente em contextos de desafios relacionados à produção, comercialização e permanência no campo.
As experiências locais evidenciaram conexões entre organização comunitária, debate climático e atuação das mulheres. Elaine Rodrigues, da comunidade Maguari, relatou que “esse projeto trouxe um orgulho muito grande, porque dentro do meu território eu estou comandando junto com outra equipe, coordenando mulheres também”. A participação em espaços mais amplos também foi destacada. “Onde eu participei da COP30, onde eu pude trazer várias coisas, novidade para dentro do nosso território”, afirmou. As discussões abordaram temas como mudanças climáticas, violência e organização coletiva, integrando diferentes dimensões da realidade das participantes.
Outro indicador acompanhado pelo projeto foi o Índice de Progresso Social (IPS), que mede a qualidade de vida das populações. Em 2022, o índice registrado nas comunidades atendidas estava abaixo da média nacional. Em 2025, o IPS alcançou 65 pontos, superando essa média. O avanço está relacionado, principalmente, à melhoria no acesso à educação, saúde, bem-estar, nutrição e segurança alimentar. Por outro lado, a avaliação também identificou impactos negativos associados à instabilidade climática e ambiental, com efeitos de secas extremas, queimadas e pressões sobre os territórios.

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