Comunidades ribeirinhas e indígenas da região do rio Arapiuns, no oeste do Pará, receberam a segunda expedição do Projeto Saúde na Floresta realizada pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA) em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Santarém
Ao longo dos 13 dias de expedição, de 24 de março a 04 de abril, o B/M Saúde e Alegria navegou pelas águas do Rio Tapajós, Rio Arapiuns, Rio Aruã indo até a cabeceira do Rio Maró, atendendo as comunidades de Prainha do Maró, Cachoeira do Aruã, Mentai, Camará, Curi e São Pedro. Em cada parada da expedição, além do serviço de saúde, foi possível ver também o envolvimento da comunidade com ações educativas e culturais, tornando a saúde algo mais próximo, compreensível e acessível.
A ação ofertou atendimentos dermatológicos especializados, oficinas de arte-educação em saúde e apresentações do Circo Mocorongo, promovendo cuidado integral à saúde e à vida comunitária. Para muitas comunidades, foi a primeira vez que um médico dermatologista esteve presente. É o caso da comunidade de Prainha do Maró, como conta o técnico de enfermagem Antônio Rian:
“Estou há quase dois anos na comunidade e é a primeira vez que a gente recebe esse atendimento com especialista em pele. É muito importante, porque a maioria das pessoas que têm algum tipo de lesão não conseguem ir até a cidade. São pessoas simples, que não priorizam o cuidado com a pele por falta de acesso”, relatou.
Paulo Peniche, enfermeiro da mesma comunidade, reforça a importância da visita.
“Dermatologista é uma especialidade difícil até em Santarém. Imagina aqui, que estamos a 22 horas de viagem em tempos de cheia, na estiagem a viagem chega a bem mais que isso […] A médica conseguiu identificar casos de câncer de pele suspeitos e já deixou tratamento e acompanhamento. Isso muda vidas.”
O enfoque dado à especialidade dermatologia nesta etapa do projeto, se dá pelo contexto das populações que residem na Amazônia, uma região com altas temperaturas e com períodos de estiagem e quentes cada vez maiores. Para as populações ribeirinhas, a exposição solar é corriqueira e está atrelada, muitas vezes, à rotina das suas atividades cotidianas, como a pesca e a lida na roça. 
A médica Carolina Pôrto enfatiza também que “a gente tá na região do país que tem maior incidência de sol, então a gente tem essa preocupação com a saúde da pele com foco no câncer de pele que é um câncer que a maioria dos casos tem um tratamento e tem cura se você consegue intervir rápido […] e os que têm as formas mais graves se você também intervém, diagnostica e trata ele tem uma chance de cura alta”.
A moradora Sulamita, que reside na Comunidade Prainha do Maró, saiu emocionada do atendimento. “Nunca me consultei com dermatologista. Achei bom demais. Fiz o exame, recebi o remédio na hora. Nem acreditei quando me deram. É muito difícil pra gente sair daqui pra se cuidar, e a doutora veio até a gente.”
Oficinas, circo e educação ambiental
Além do atendimento médico, as comunidades participaram de oficinas lúdicas e educativas com foco em saúde e meio ambiente. Os temas abordaram desde cuidados básicos em saúde e prevenção de doenças até as mudanças climáticas e seus efeitos sobre a vida na floresta.
Na comunidade de Cachoeira do Aruã, a estudante Ana Clara, de 13 anos, resumiu a experiência: “A gente aprendeu sobre as secas, as enchentes e como isso tudo tá mudando. A oficina foi divertida, a gente brincou e também aprendeu de verdade. Foi a primeira vez que falaram disso aqui com a gente assim, desse jeito.”
Já a jovem Hadassa, jovem indígena da aldeia Camará, destacou a importância do diálogo com os povos originários. “Vocês trouxeram conhecimento que às vezes a gente até sabia, mas não tinha consciência do quanto é importante […] Falar sobre reflorestamento, saúde e clima é essencial para nós que vivemos da terra e da água.”
O Circo Mocorongo levou riso e reflexão com espetáculos interativos. Para Ian Arapiuns, presidente da associação da aldeia Camará, o impacto foi profundo. “Foi a primeira vez que vimos uma encenação teatral na nossa aldeia. Nossas crianças ficaram encantadas e aprenderam brincando […] Foi muito mais que diversão, foi aprendizado com afeto.”
Vozes das comunidades: liderança e participação
As lideranças locais participaram ativamente da organização da expedição. Valdinei Andrade, presidente da comunidade Cachoeira do Aruã, destacou a logística e a importância do esforço coletivo.
“A maioria das pessoas não tem como ir até Santarém. Então receber aqui uma médica especialista, ter oficina pras crianças e ainda levar conhecimento pra dentro da escola, isso é muito valioso.”
Keliane dos Santos, vice-presidente da comunidade de Mentai e agente comunitária de saúde, reforça que o projeto ajuda a preencher um vazio histórico. “A gente nunca teve dermatologista aqui. Na primeira visita, já foram feitos encaminhamentos. E agora vieram os retornos. Isso mostra cuidado, mostra que não esqueceram da gente.”
Parceria entre o Projeto e a UEPA oportuniza que estudantes vivenciem a medicina na floresta
A expedição contou com a participação de onze acadêmicos de medicina da UEPA/Santarém, que realizaram seu último estágio da graduação em plena floresta. Para muitos, foi uma experiência transformadora.
A estudante Yasmin Azevedo contou como foi desafiador sair da zona de conforto. “Dormir em rede, sem ventilador, atendendo onde às vezes nem tem luz… Mas foi muito mais gratificante do que difícil. Entendemos outra realidade, ouvimos histórias e nos emocionamos.”
Gisela, também acadêmica do último semestre, pontuou o impacto da experiência na sua vida profissional. “Na cidade, a gente vê só a ponta do iceberg […] Aqui a gente entende por que muitos pacientes chegam com casos avançados. Isso muda a nossa forma de atender.”
Para o acadêmico Luan Moraes, foi a melhor maneira de encerrar a graduação. “A gente aprendeu mais em uma semana aqui do que em muitos meses na cidade […] A medicina precisa conhecer e respeitar a realidade de quem vive longe da cidade.”
Construção coletiva por justiça social
Para o educador popular Diego Godinho, a ação é, acima de tudo, uma construção coletiva por justiça social:
“O que fazemos aqui é um reparo histórico. São povos que garantem a vida do planeta e, mesmo assim, continuam invisibilizados. A gente vem pra somar e, principalmente, pra ouvir e aprender também […] Eu fico até emocionado, pois é o meu povo”
A médica Ana Carolina Pôrto, médica infectologista da equipe do projeto, destaca que o objetivo é promover saúde de forma integral, respeitando e dialogando com os saberes locais.
“Trabalhar saúde na floresta não é só dar remédio. É entender o contexto, é escutar, é ensinar e aprender junto. E essa experiência também forma profissionais mais humanos.”
Saúde como direito, com alegria e respeito
Com sua segunda expedição finalizada, o Saúde e Alegria, por meio do projeto Saúde na Floresta, reafirma o compromisso com o cuidado integral, o respeito aos saberes locais e a promoção da saúde como direito — para todos, em qualquer lugar da Amazônia.
As ações de Educação em Saúde contam com o apoio da Rotary Foundation, por meio do Prêmio The One. As atividades voltadas ao diagnóstico e tratamento do câncer de pele têm o suporte da biofarmacêutica Bristol Myers Squibb. A expedição foi realizada como contrapartida do Projeto Saúde e Alegria à Fundação Banco do Brasil.
Texto: Marta Silva
Revisão e relacionamento com imprensa: Samela Bonfim (93) 99234-9241
Fotos: Marta Silva e Carolina Portô/ Saúde e Alegria.











