Eletricistas do sol: Indígenas Munduruku do médio e alto Tapajós concluem formação em energia solar 

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Jovens de dezenove aldeias concluíram o curso teórico-prático, qualificados para promover instalações e manutenção em sistemas fotovoltaicos nas aldeias de Itaituba e Jacareacanga. A iniciativa é do Projeto Saúde e Alegria que chega à sétima edição com 175 pessoas formadas 

No Centro Experimental Floresta Ativa (CEFA), em Santarém, 19 indígenas Munduruku do Médio e Alto Tapajós participaram da sétima edição da oficina “Eletricistas do Sol”, promovida pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA) em parceria com o UNICEF, Mott Foundation, Fundação Toyota e Fundação Konrad Adenauer. O objetivo foi capacitar lideranças para instalar e manter sistemas de energia solar em suas aldeias, fortalecendo a autonomia local e reduzindo a dependência de técnicos externos.

O curso Eletricistas do Sol integra uma estratégia para fortalecer as comunidades e oportunizar novas oportunidades de geração de renda. Compõe as ações do programa de Infraestrutura Comunitária do PSA e da Escola Floresta Ativa, que leva formação e qualificação profissional para as comunidades. Jussara Salgado, coordenadora de Infraestrutura Comunitária do PSA, destaca que “Não dá para trabalhar projetos sem que os territórios se apropriem do que estão recebendo. A oficina garante que eles retornem como multiplicadores, fortalecendo autonomia e proteção territorial.”

A energia solar, renovável e sem emissões, tem se tornado a principal alternativa para comunidades distantes da rede elétrica. O Projeto Saúde e Alegria defende a necessidade de instalar sistemas e formar multiplicadores locais. A logística para reunir os participantes exigiu longos deslocamentos. Elson Hoyos, supervisor de saúde ambiental do Distrito Sanitário Especial Indígena do Rio Tapajós, acompanhou o grupo: “Foram cerca de três dias de viagem entre trechos fluviais e terrestres. A ideia é que os sistemas sejam autossustentáveis, e para isso é preciso investir em capacitação. Se houver um problema simples, como trocar um disjuntor, eles mesmos podem resolver sem esperar dias por um técnico de fora.”

O fortalecimento comunitário também está ligado à proteção contra pressões externas e se conectar com a autonomia das comunidades e aldeias. Os sistemas de abastecimento de água movidos à energia solar, as Unidades Básicas de Saúde que operam o armazenamento de vacinas com sistemas fotovoltaicos e os painéis dimensionados para o consumo doméstico são ações do Programa de Infraestrutura Comunitária promovidos pelo PSA. Com eletricistas do sol formados, amplia a capacidade de resistência dos povos frente às ameaças ambientais, como o garimpo ilegal.

“Então é uma forma também de você estar trabalhando a emancipação dessas comunidades, aumentando a resolutividade local para essas necessidades, desempregos que vão chegando nessas aldeias, né? E é fundamental também porque parte dessa turma que tá aqui, são agentes indígenas de saneamento, né? É parte de uma política pública e a gente vem qualificando esses agentes, não só para a questão do saneamento, da água, do bombeamento, mas também a qualificação deles como eletricistas do sol para poder trabalhar cada vez mais fontes de energia renovável, inclusive para fins de saneamento” – Caetano Scannavino, coordenador geral do PSA.

Para os jovens participantes, o curso representou a chance de levar novidades tecnológicas a comunidades onde o acesso à energia ainda é limitado.

“O que aprendi aqui vou levar para minha comunidade e também para outras aldeias. Os jovens lá ainda não conhecem essa tecnologia” – Thiago Akay, da aldeia Nova Trairão.

“Achei muito importante, porque posso ensinar as crianças e os jovens. Quando surgir um problema, já vai ter alguém na aldeia que sabe resolver” – Jesuel Poxo Munduruku.

“É a primeira vez que participo de uma oficina de energia. Agora posso ajudar meus colegas e ensinar dentro da aldeia.” – Edinezio Munduruku.

A oficina contou com momentos práticos, em que os participantes concluíram sozinhos a instalação de um sistema fotovoltaico. Bruno Amir, técnico de inclusão digital do PSA, destacou que a formação detalhada foi um marco: “Nos territórios nem sempre temos tempo para explicar cada etapa. Aqui, eles compreenderam do início ao fim. Saem com a capacidade de diagnosticar problemas e até sugeriram avançar para módulos mais complexos.”

Além da autonomia energética, a iniciativa se conecta a questões ambientais e sociais. Raimundo, do DSEI Rio Tapajós lembrou que “Esses conhecimentos aumentam a independência das comunidades e reduzem custos. São agentes que podem resolver problemas no saneamento e na energia, sem depender de alguém de fora.”

Para Mariana Buoro, oficial de Clima, Meio Ambiente e Energia do UNICEF Brasil, a formação busca enfrentar desigualdades no acesso às oportunidades de trabalho: “O estudo que lançamos mostrou que as capacitações estão concentradas nas grandes cidades. Quando realizamos uma oficina dentro da floresta, em língua Munduruku, respeitando tradições e com linguagem acessível, estamos ajudando a corrigir esse gargalo.”

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