Tapajós faz sua estreia em Santarém na 35ª edição da Mostra de Teatro de Santarém
Tapajós foto: ©Anouk_Maupu
Gabriela Carneiro da Cunha há mais de dez anos conduz o projeto de pesquisa em arte Margens – sobre Rios, Buiúnas e Vagalumes, em que mergulha nas histórias que cercam os rios brasileiros em situação de catástrofe — em particular os da região Norte — para escutar e ampliar seus testemunhos. Tapajós discute a contaminação por mercúrio das águas e dos corpos humanos e não humanos que habitam o rio.
A apresentação acontece no dia 1º de novembro, às 20h, em Santarém, dentro da 35ª edição da Mostra de Teatro da Cidade.
Tapajós é uma produção da Aruac Filmes e Corpo Rastreado, com produção associada da Associação de Mulheres Munduruku Pariri e da Associação Sairé. O trabalho foi realizado em coprodução com instituições como o Théâtre Vidy-Lausanne, Wiener Festwochen, Frei Republik Wien, Festival d’Automne à Paris, Centre Pompidou, Halles de Schaerbeek, Kunstenfestivaldesarts, La Rose des Vents, Théâtre Garonne e International Summer Festival Kampnagel, com apoio à pesquisa do Manchester International Festival.
A peça, terceira etapa do projeto, também foi imaginada como uma resposta ao conceito de Antropoceno, definido por Eliane Brum como “o momento em que os homens deixam de temer a catástrofe para se tornarem a própria catástrofe”.
“A pesquisa é uma tentativa de devolver aos humanos a capacidade de escutar outras vozes”, afirma Gabriela. “O projeto propõe a criação de trabalhos artísticos no teatro, no cinema, nas artes visuais, além de publicações, workshops e da rede entre mulheres, rios e arte chamada Rede Buiúnas.”
As duas primeiras etapas deram origem às performances Guerrilheiras ou Para a Terra Não Há Desaparecidos (2015), em torno do rio Araguaia e das mulheres da Guerrilha do Araguaia, e Altamira 2042, criada a partir da escuta do rio Xingu sobre a catástrofe causada por Belo Monte.
Tapajós nasceu da escuta do testemunho do rio sobre a contaminação por mercúrio proveniente do garimpo de ouro ilegal.
“A pesquisa começou em 2022, durante a Assembleia do Mercúrio na Terra Indígena Munduruku Sawré Muybu, quando a Fiocruz apresentou os resultados da contaminação. Cerca de 57,9% dos habitantes locais apresentaram níveis de mercúrio acima do limite máximo de segurança”, relata a artista.
Para Gabriela, a escuta da Assembleia tornou-se o coração da peça — “uma trama de vozes que vão se tecendo”.
A performance segue o rastro do elemento químico, transformando-o em agente para a construção de novos mundos. Gabriela divide a cena com Mafalda Pequenino, atriz, diretora e ativista. Também participam João Freddi e Vicente Otávio, técnicos de fotografia e performers.
O desenho sonoro é de Felipe Storino e inclui orações, músicas do Sairé, coros e sons de água do rio e do útero.
A encenação se transforma em um ritual: o espaço teatral vira laboratório de revelação fotográfica analógica e depois em exposição de arte.
“O mercúrio, capaz de revelar o ouro e causar tragédias, também pode revelar imagens. A mesma substância tem potencial de fazer existências desaparecerem ou se ampliarem”, diz Gabriela.
Mafalda complementa:
“O testemunho do velho rio Tapajós destaca a energia feminina como potência revolucionária. É urgente corporificar o encantamento, dançar a continuidade e cantar a Terra.”
Mãe do Rio
Durante a Assembleia, a liderança Ediene Munduruku disse que, para curar o rio Tapajós, seria preciso “trabalhar com a Mãe do Rio”.
“A partir disso, esse personagem se torna um eixo central da peça — não só a Mãe do Rio, mas todas as mães. É uma aliança multiespécie entre mães”, explica Gabriela.
As atrizes convidam as mães da plateia a participarem dos rituais, ampliando o conceito de maternidade.
“Todo corpo pode habitar uma mãe. Não se trata de conceber, mas de criar mais vida.”
A equipe participou do Festival Sairé, em Alter do Chão, e do Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília. Em 2024, a pesquisa voltou a Santarém e Alter do Chão para aprofundar o diálogo sobre maternidade e espiritualidade na luta.
Durante a performance, as atrizes produzem um líquido revelador fotográfico feito de ervas, que é preparado junto com o público.
“Distribuímos os materiais para a plateia, principalmente as mães, e revelamos fotos que depois ficam expostas”, conta Gabriela.
Sobre a artista
Gabriela Carneiro da Cunha é atriz, diretora, pesquisadora e ativista ambiental. Sócia da Aruac Filmes, idealiza o projeto Margens – Sobre Rios, Buiúnas e Vagalumes, que escuta testemunhos de rios brasileiros em situação de catástrofe.
Suas performances incluem Guerrilheiras ou Para a Terra Não Há Desaparecidos, Altamira 2042 e Tapajós, além de filmes, publicações e oficinas. Recentemente, o projeto conquistou um território às margens do Xingu para criação de um espaço de residência artística.
As obras Altamira 2042 e Tapajós já circularam internacionalmente em festivais e teatros como o Théâtre Vidy-Lausanne, Centre Pompidou, Festival d’Automne à Paris, Kampnagel e Kunstenfestivaldesarts.
Gabriela também co-dirigiu com Eryk Rocha o filme A Queda do Céu, baseado na obra de Davi Kopenawa e Bruce Albert, estreado na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em 2024.
Sinopse
Tapajós é uma performance nascida da escuta do testemunho do rio Tapajós sobre a contaminação por mercúrio do garimpo ilegal. Terceira parte do projeto Margens, conduzido por Gabriela Carneiro da Cunha há mais de dez anos, a obra propõe uma aliança multiespécie entre mães — da região do Tapajós, Munduruku, do Sairé, dos peixes, da floresta e do rio — para refletir sobre o que é criar e sustentar a vida.
O espetáculo transforma o teatro em um laboratório de revelação fotográfica, unindo ritual, performance e ciência, e conectando o mercúrio que revela o ouro ao que revela imagens.
Ficha Técnica
Concepção e direção: Gabriela Carneiro da Cunha e o Rio Tapajós
Com: Gabriela Carneiro da Cunha e Mafalda Pequenino
Criação: Sofia Tomic, João Freddi, Vicente Otávio, Mafalda Pequenino e Gabriela Carneiro da Cunha
Assistência de direção: Sofia Tomic
Fotografia: Gabriela Carneiro da Cunha, Vicente Otávio e João Freddi
Dramaturgia: Alessandra Korap, Maria Leusa Munduruku, Ediene Munduruku, Cacica Isaura Munduruku, Ana Carolina Alfinito, Paulo Basta, Julia Ferreira Corrêa, Rosana Farias Mascarenhas, Dalva de Jesus Vieira, Osmar Vieira de Oliveira, Celiney Eulália de Oliveira Lobato, Rodrigo Oliveira, Mauricio Torres e Eric Jennings
Som: Felipe Storino
Cenografia: Sofia Tomic, Ciro Schu e Jimmy Wong
Produção geral: Corpo Rastreado, Aruac Filmes, Théâtre Vidy-Lausanne e Projeto Margens
Produção associada: Associação de Mulheres Munduruku Pariri e Associação Sairé
Apoio à pesquisa: Manchester International Festival
Serviço
Tapajós
📅 1º de novembro de 2025 (sábado), às 20h
📍 Rua Hortência, 174 – Santarém (PA)
⏱ Duração: 90 minutos
🎟 Entrada gratuita
Atenção: o espetáculo contém cenas com luzes estroboscópicas, não recomendado para pessoas com fotossensibilidade.






