Em expedição para a Conferência das Partes, jornalistas, comunicadores, lideranças e pesquisadores discutiram os impactos da mineração, impactos dos efeitos das mudanças climáticas para populações vulneráveis, injustiça climática, falta de acesso à água potável e perda da biodiversidade
A Amazônia “intocada” não existe. O arqueólogo Eduardo Neves lembrou que há pelo menos 13 mil anos os povos vivem, manejam e transformam essa floresta, sem destruí-la. “A Amazônia não era só floresta. Era floresta com gente”, disse no barco que desceu o Tapajós e encontrou o Amazonas a caminho de Belém. Santarém, segundo ele, é talvez a cidade mais antiga do Brasil em presença humana contínua. Antes da colonização, já havia ali ocupação densa, complexa, articulada.
A frase de Eduardo desmonta a ficção que ainda alimenta políticas públicas e decisões econômicas: a ideia de que a floresta é cenário e não sociedade. Essa mentira sustenta há décadas o uso desenfreado do território. Mas agora a ciência vem confirmando, camada por camada, aquilo que povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e agricultores familiares repetem há anos, a floresta está perdendo a capacidade de existir como floresta.Pesquisadores a bordo alertaram que a degradação avança mesmo com a queda do desmatamento. Árvores são deixadas estrategicamente para enganar satélites enquanto o interior da floresta morre. Os rios deixam de cumprir ciclos. A floresta respira com dificuldade. “É um encontro de ciência”, disse Fábio Pena coordenador de Educação, Comunicação e Cultura do Projeto Saúde e Alegria (PSA) ao comentar que a expedição reuniu cientistas, lideranças, comunicadores e povos tradicionais em uma mesma travessia “para fazer essa discussão, fazer esse debate”.

Maria Vidal, agricultora da comunidade Carariacá, resumiu: “Perdemos nossa produção. Perdemos a mandioca. Perdemos quase tudo.” A seca extrema isolou comunidades inteiras com o desaparecimento dos rios nos anos 2023 e 2024, quando a maior seca dos últimos anos matou peixes e impactou quem se locomove pelos rios.
As mulheres relataram que são elas que carregam a sobrecarga colapso do clima: buscam água, cuidam de filhos, mantêm a roça, cozinham, pescam e organizam a comunidade. “Nós trabalhamos muito mais. A gente vai para a roça, chega na roça, faz comida, cuida de filho, trabalha”, disse Sônia Martins.
A juventude indígena também descreve as condições que se transformam rápido demais. André, jovem Maruara da Resex Tapajós-Arapiuns, contou do aumento da temperatura, das invasões e do medo de perder cultura e língua. Teme que a tecnologia descole jovens da vida comunitária: “Só que a maioria da juventude ela se influencia e acaba perdendo a coisa mais importante que é a produção do seu território”.
Em Barcarena, Mário descreve a devastação que atravessa décadas: comunidades expulsas, rios contaminados, mulheres assediadas, fauna desaparecida e ausência total de consulta. Para ele, a crise climática revela desigualdades históricas: “Dizem que estamos no mesmo barco. Não estamos. Uns estão de iate. Outros estão na lancha, canoa, bajara, casco.”
Diante desse cenário, a juventude amazônida decidiu transformar a luta em pauta política. Darlon Neres, do Lago Grande, lembrou que populações tradicionais raramente conseguem participar dos grandes espaços da COP, e quando entram, enfrentam uma linguagem que não fala com sua realidade. A expedição, para ele, produz mais sentido do que a conferência: “Isso é histórico aqui na na Amazônia para uma COP, né, que tá na na sua edição de número 30 e a gente percebe esse movimento que vai ser feito nesse espaço. Então, a gente vai fazer história.” O grupo jovem chega a Belém com duas prioridades: Direitos da natureza, com a defesa do rio Arapiuns como sujeito de direitos e territórios livres de mineração, recusando o modelo que destrói territórios e modos de vida. Eles carregam uma carta assinada por 800 jovens.
Durante o percurso lideranças denunciaram mortes de 570 crianças por malária, fome e verminose após a devastação do garimpo em Belo Monte. Ao final da expedição mulheres ribeirinhas, indígenas, agricultoras, lideranças do Tapajós e do Arapiuns enfatizaram que o agronegócio e a mineração seguem avançando sobre aldeias e comunidades. E que não aceitarão ser retiradas da própria história.


A Caravana “Navegando contra o fim do mundo” foi organizada pelo Projeto Saúde e Alegria, DW Akademie, Sumaúma, Fiocruz, SAMA e instituições de pesquisa e base comunitária. Como disse Caetano Scannavino, coordenador geral do PSA, destacou no início da viagem, que o objetivo era “chegar em Belém com proposta, chegar em Belém com a energia necessária como sociedade civil para tirar nossos tomadores de decisão da letargia e poderem dar atenção com a devida agilidade que a crise climática nos demanda”.
Ouça também:
https://soundcloud.com/projeto-saudede-e-alegria/alo-comunidade-direto-da-abertura-da-cop3






