“A queda já começou”: Antônio Nobre explica por que a humanidade pode não sobreviver à Amazônia devastada

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O barco seguia pelo Amazonas quando Antônio Nobre, um dos principais pesquisadores do clima na região, sentou diante da TV Mocoroca e do microfone da Rádio Sumaúma. Conduzida por Caetano Scannavino, coordenador geral do PSA, a conversa evoluiu para uma conversa profunda com quem observa o planeta a partir de décadas de estudo e escuta dos povos da floresta. Ele lembrou que a Terra ainda é “uma casa maravilhosa de morada”, um lugar onde ainda se respira oxigênio puro, onde o maior rio do mundo corre logo ali embaixo e onde um pássaro pode interromper a entrevista com o próprio canto.

Ao ser perguntado sobre o estado do mundo, Nobre respondeu sem rodeios que a humanidade já iniciou um mergulho em queda livre. A paisagem durante a queda, disse ele, ainda pode parecer bela. O vento no rosto, o céu aberto, a ilusão de movimento. “O problema é o final da queda. Lá embaixo não tem água nem ar. É pedra. Pedra pontuda.” A imagem sintetiza a mensagem central do cientista: ao comprometer os sistemas que sustentam a vida, comprometemos a própria continuidade da humanidade.

Mas afinal, como adiar o fim do mundo? Nobre citou a noção de “queda do céu” dos povos indígenas e afirmou que o adiamento dessa queda depende de uma força concreta. “O adiamento da queda do céu e do fim do mundo tem um nome: amor.” O amor que reata conexões entre pessoas, territórios e processos vivos. O mesmo princípio que, segundo ele, está no trabalho do Projeto Saúde e Alegria quando transforma com cuidado através da arte, do riso e da escuta.

Quando o diálogo caminhou para o significado de “saúde e alegria”, o cientista inverteu a ordem. Para ele, deveria ser “alegria e saúde”, porque a saúde brota da alegria. Explicou que a alegria é um mecanismo fisiológico e existencial que libera substâncias, movimenta sentidos e devolve propósito. Afirmou que povos indígenas compreendem isso com naturalidade, enquanto as sociedades ocidentais se distanciaram dessa capacidade. “Os brancos têm muita dificuldade de lidar com alegria. Precisam trabalhar sem parar para justificar uma coisa lá no futuro. E quando chegam lá, não estão alegres. Barraram o Xingu e não estão alegres.”

Nobre ressaltou que o amor não dispensa o uso de outras ferramentas. Ciência, tecnologia, conhecimento tradicional, estratégias da natureza e os modos de vida dos povos nativos precisam convergir. Fotos: Fábio Pena/PSA.

Nobre retomou a importância de aprender com quem habita a floresta há milênios. Disse que a alegria dos povos indígenas é direção; que a forma como lidam com o mundo fornece orientação para reparar parte do estrago produzido; que há sabedorias e tecnologias ancestrais que continuam disponíveis. A entrevista terminou com ele resumindo essa visão como quem deixa um recado mais amplo do que a própria fala: “Saúde, alegria do corpo, alegria, saúde da alma.”

Enquanto o barco seguia em direção a Belém, carregando lideranças, pesquisadores, comunicadores e jovens da floresta, a fala de Antônio Nobre ganhou outro sentido. O maior rio do mundo passava sob o casco da embarcação, ainda em movimento. O alerta do cientista: a queda já começou; o que resta agora é decidir se vamos continuar olhando a paisagem como se nada estivesse acontecendo ou se vamos construir o paraquedas comum que ainda pode adiar o impacto.

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