Representantes de mais de 15 aldeias do território Munduruku do alto Tapajós estiveram reunidos em Santarém, entre os dias 15 e 19, para uma oficina de avaliação, planejamento e formação do Coletivo Munduruku Poy. O encontro marcou a última atividade do ano do Projeto Saúde e Alegria junto ao território e reuniu lideranças indígenas, professores e coordenações da associação. A atividade contou com apoio da WWF e Rewild.
Fábio Pena, do Projeto Saúde e Alegria (PSA), destacou que o momento foi de balanço e de alinhamento sobre os próximos passos do trabalho conjunto. “É uma atividade de capacitação, de fortalecimento dessa organização que começou ano passado, foi institucionalizado ano passado, com uma articulação dos povos do território. A gente tá aqui conversando também o futuro, quais são os novos projetos, o que o Saúde e Alegria vai estar apoiando nos próximos anos”, afirmou.
“Tem perspectivas muito interessantes de fortalecimento dessa atividade socioprodutiva no território, não só a questão econômica, mas também a organização social, o movimento das mulheres. É uma última conversa do ano para alinhar essas perspectivas que o Saúde e Alegria tem lá para o território Munduruku”, completou.
Márcio Santos, coordenador de assistência técnica do PSA, ressaltou que oficina teve como foco central a gestão da associação e a construção de estratégias para 2026. “Esse é um momento de avaliação e planejamento das ações do coletivo Poy para 2026 no território Munduruku. É uma associação recente, com o intuito de fortalecer ações no território, tanto de segurança alimentar, de segurança do território, a governança do território como um todo”, explicou.
A proteção territorial nas aldeias está diretamente ligada à geração de renda. “A preocupação nossa é ter esses povos protegidos, mas também com estratégias econômicas para o território. A oficina traz elementos que estão construindo essas estratégias, principalmente no eixo da bioeconomia da sociobiodiversidade, do extrativismo, como coleta de castanha, extração de óleo de copaíba, produtos como mel de abelha”, disse.
Representando os professores indígenas, Edvaldo Poxo Munduruku destacou a importância da formação para o fortalecimento da associação. “Várias lideranças de todas as aldeias estão presentes aqui. A gente só tem a agradecer ao Saúde e Alegria por convidar a gente para fazer essa oficina de capacitação, como administrar uma associação”, afirmou.
Ele ressalta que o processo trouxe aprendizados novos. “Somente é através dessa oficina que a gente foi conhecendo o que a gente não sabia antes. A gente pode sair daqui preparados para atuar, para conduzir a associação, para que ela possa crescer cada vez mais e trabalhar conforme o estatuto, com transparência para todos os parceiros”, disse.
Edvaldo também falou sobre os avanços. “Antes a gente não tinha direção por onde vender a castanha, a copaíba. Quando surgiram os parceiros, através do Saúde e Alegria e da Ordem dos Frades Menores, a gente conseguiu avançar. Hoje, em todas as aldeias, os castanheiros estão crescendo cada vez mais em busca de trabalhar mais”.
Na avaliação dele, a produção está ligada à defesa do território. “Não somente para a sustentação da família, mas dentro desse trabalho a gente vem fortalecendo nosso território, defendendo o nosso território, para que no futuro nossos filhos e netos tenham a mesma consciência. Quem ganha com isso é nós, o povo Munduruku”, afirmou.
Caetano Scannavino, coordenador geral do PSA, reforça a importância da formação para autonomia comunitária: “Estamos muito felizes em encerrar o ano com esse encontro, que incluiu o ‘Curso de Práticas Básicas de Gestão Administrativa e Financeira’. Assinamos ainda o Termo de Cooperação entre o Saúde & Alegria e o Poy, com repasse de recursos para eles administrarem diretamente o capital de giro para comercialização da castanha e copaíba. Todo apoio a esse Coletivo criado como alternativa econômica aos garimpos, pelo bem-viver, mostrando que é possível gerar renda com a floresta em pé e rios limpos, sem mercúrio.”
Presidente do Coletivo Munduruku Poy, João de Deus Kaba Munduruku também destacou o caráter inédito da formação. “É a primeira vez que a gente tá realizando essa oficina como membros do coletivo. É uma grande satisfação para nós e a gente queria que continuasse essa oficina, para que a gente tenha mais conhecimento para trabalhar o nosso projeto de sustentabilidade”, disse.
Atualmente, mais de 60 indígenas participam diretamente do coletivo. João de Deus explicou que a associação já tem experiência com algumas cadeias produtivas. “A gente já tem experiência para colher a castanha e a copaíba. Já está realizando nas nossas aldeias. Isso é muito importante para nós no nosso território”, afirmou.
Sobre a safra de castanha, ele lembrou que a produção foi severamente impactada pelas mudanças no clima. Em 2023, primeiro ano de atividades do coletivo, 32 toneladas de castanha foram coletadas. Em 2024 devido a seca severa, apenas 3,6 toneladas. Este ano, foram coletadas 15 toneladas. “No ano passado a natureza falhou muito. Não é que a gente não quer trabalhar, a gente tenta e não consegue. Tem vezes que falha. Nesse ano a gente espera um bom resultado da produção”, relatou.
João de Deus também falou do contexto de pressão sobre o território Munduruku. “A nossa resistência, a gente não vai deixar destruir essa natureza e o nosso território. A gente tá tentando evitar as queimadas, evitar os garimpos ilegais. A gente sempre vem contra essas poluições que causam problemas no nosso meio ambiente e na nossa saúde”, afirmou.
O encontro encerrou o ano com encaminhamentos para a ampliação das ações do Coletivo Munduruku POY, combinando formação, organização interna, geração de renda e defesa do território, a partir do planejamento conjunto para os próximos anos.






