Curso realizado no Centro Experimental Floresta Ativa, do Projeto Saúde e Alegria, reuniu mulheres de aldeias, comunidades ribeirinhas e quilombolas para aprender eletricidade básica e sistemas solares
No Centro Experimental Floresta Ativa (CEFA) na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns um grupo de mulheres de diferentes territórios da Amazônia passou a semana montando circuitos elétricos, instalando disjuntores, calculando consumo de energia e dimensionando sistemas solares. A formação faz parte da oficina Eletricistas do Sol, iniciativa do Projeto Saúde e Alegria que, nesta edição, reuniu exclusivamente mulheres de comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas.
A oficina surge no contexto da estratégia de formação comunitária ligada aos projetos de eletrificação rural do Saúde e Alegria. A coordenadora do programa de infraestrutura comunitária explica que a chegada de tecnologias como a energia solar precisa vir acompanhada de conhecimento local para garantir autonomia das comunidades. “A partir do momento que a gente passa a levar essas tecnologias para dentro das comunidades, a gente precisa fazer com que eles se apropriem desse modelo que a gente tá levando, dessa proposta de solução. E uma forma de que eles possam se apropriar é fazendo atividades formativas.” O acesso à energia, acrescenta, está diretamente relacionado a direitos básicos, explica Jussara Salgado. “Hoje o acesso à energia está ligado a diversos direitos básicos, como acesso à água, acesso à educação, acesso à saúde e comunicação.”
A formação de eletricistas comunitários acontece há quase uma década. Durante anos, as turmas foram mistas, mas a presença masculina predominava. “Quando as comunidades indicavam seus participantes, na maioria eram homens e a gente via poucas mulheres ocupando esses espaços de formação.” A experiência levou à criação de turmas exclusivas para mulheres. “A gente identificou como uma oportunidade de criar um espaço onde elas se sentissem acolhidas para participar e confortáveis, porque é um assunto mais técnico, mas é um assunto também que elas convivem diariamente.”

Na prática, muitas das participantes lidam com sistemas de energia em casa, mas raramente participam das decisões ou da manutenção. Em várias comunidades, quando ocorre um problema no sistema elétrico, as mulheres aguardam a presença de um homem para resolver. “Elas ficam com medo de lidar ou de manusear aqueles sistemas e às vezes ficam esperando os maridos ou uma presença masculina para fazer algum tipo de manutenção.” O curso propõe romper essa lógica, ensinando desde conceitos básicos de eletricidade até a montagem de sistemas fotovoltaicos.
A formação reuniu cerca de 26 participantes indicadas pelas comunidades. Durante as aulas, alternam-se momentos de teoria e prática com rodas de conversa. O ambiente coletivo favorece a troca de experiências. “É mais do que um espaço técnico de conhecimento. É um espaço de muita troca, de muita partilha, de muito acolhimento.” Histórias semelhantes surgem entre as participantes. “A gente ouviu várias histórias de mulheres que passam por dificuldades nas suas comunidades e procura promover esse espaço de escuta, fazendo com que elas se identifiquem umas nas outras.”
O curso integra as atividades da Escola Floresta Ativa, iniciativa de formação do Projeto Saúde e Alegria e conta com o apoio da @mottfoundation, @fundacaotoyotadobrasil e @kasbrasil. A atual edição forma a terceira turma de mulheres eletricistas do sol. “É uma felicidade poder ter iniciado esse curso exclusivo para os segmentos femininos, em cima de uma atividade normalmente dominada pelos homens”, afirma o coordenador do projeto, Caetano Scannavino. Ele destaca que a capacitação busca resolver um problema recorrente nas regiões mais isoladas da Amazônia: a dificuldade de manutenção dos sistemas energéticos.
Muitas comunidades ficam a vários dias de viagem das cidades mais próximas. Nesses locais, a simples troca de uma bateria ou reparo em um painel solar pode exigir deslocamentos caros ou a presença de técnicos externos. A proposta da formação é criar conhecimento dentro do próprio território. “Hoje, cada vez mais, a gente vem formando mulheres habilitadas ali naquela aldeia, naquela comunidade de difícil acesso para poder fazer a manutenção e reparo das instalações, principalmente de energia solar.” O impacto também é econômico. “É uma forma de gerar independência comunitária, formando pessoas da própria comunidade para poder resolver o máximo de questões possíveis ali mesmo.”

Entre as participantes está Derlane Silva de Souza, da aldeia Novo Horizonte. Na comunidade, a energia chegou recentemente por meio de um projeto de fontes renováveis que atende escola, posto de saúde e sistema de água. Ainda assim, nem todas as casas são atendidas. “Na minha casa a energia não chega, então nem pelo motor a diesel e nem da placa solar.” No cotidiano, a família utiliza lamparina e um motor ligado apenas para bombeamento de água e funcionamento de freezer comunitário.
Derlane já tinha contato com energia solar por trabalhar como estagiária em um laboratório de energias renováveis da Universidade Federal do Oeste do Pará. Mesmo assim, diz que encontrou desafios ao atuar em um espaço dominado por homens. “Eu trabalho com homens e os meninos usam a palavra me poupar. Então às vezes eu costumo ficar de lado um pouquinho e deixar eles aparecerem mais.” Ao participar do curso, diz ter encontrado um ambiente diferente. “Eu sempre fui muito curiosa. Para aprender a gente tem que errar. Errando eu vou metendo a cara e vou fazendo.”

Durante as aulas, um dos conteúdos que mais chamou sua atenção foi o cálculo do dimensionamento dos sistemas solares. “Montar para mim é muito fácil, mas saber dimensionar o tanto de consumo com o meu sistema, isso foi muito melhor para eu conseguir pegar bem.” Ao retornar para a aldeia, pretende aplicar o que aprendeu. “Com agora com o curso já tô mais confiante, então eu vou, bora lá, vamos que vamos.”
Histórias semelhantes aparecem entre as participantes. Na comunidade Carão, no rio Tapajós, Jaqueline Lopes Ferreira passou anos sem energia elétrica em casa. O sistema solar que utiliza hoje foi adquirido com recursos próprios. “Quando eu cheguei para cá, as outras famílias já tinham sido assistidas pelo projeto das placas solar e eu fiquei sem energia.” A instalação trouxe mudanças no cotidiano da família. “Mudou bastante porque facilitou. Quem tem criança sabe que é difícil. E também para conservar alimento.”
Apesar disso, Jaqueline diz que sempre teve curiosidade em aprender a lidar com o sistema. A participação na oficina ampliou esse conhecimento. “Eu perdi o medo de mexer em tomada.” Um dos conteúdos que mais chamou sua atenção foi o cálculo do consumo de energia. “Às vezes a gente quer ligar um aparelho e o inversor apita. Agora eu já posso ter uma noção de calcular a quantidade de aparelho que o meu sistema consegue funcionar.”

Em outras localidades, o desafio ainda é o acesso à energia. Na aldeia Pinhel, da etnia Maipupu, Aurivani dos Santos Santiago relata que a rede elétrica ainda funciona de forma improvisada. “No momento ainda é a energia clandestina que fala, que foi a comunidade se reuniu, foi feito um pico pelo meio da mata e puxada a energia dessa forma.” A qualidade é instável. “Às vezes do nada dá aquela queda e quando alguém liga alguma coisa em outras casas apaga tudo.”
Para ela, aprender eletricidade significa reduzir dependências. “Queimou um disjuntor lá em casa e tá mais ou menos uns 15 dias sem funcionar, eu pedindo para o meu irmão ir fazer e ele não faz.” Após a formação, já tem planos definidos. “A primeira coisa que eu vou fazer quando chegar em casa vai ser trocar esse disjuntor.” O aprendizado, afirma, traz outro sentimento. “Não depender de alguém é muito bom.”

A formação também reúne participantes de territórios quilombolas. Joerlane Anjos Mendes veio da comunidade Paraná do Abuí, no rio Trombetas, em Oriximiná. Ela integra uma associação que representa dezenas de comunidades da região. A participação no curso abre a possibilidade de multiplicar o conhecimento. “A gente trabalha em prol das comunidades, então estando lá dentro consegue alcançar a demanda de mulheres e passar o que a gente aprendeu aqui.”
A prática foi o que mais chamou sua atenção. “A parte mais emocionante do curso está sendo além de aprender o teórico, mas sim praticar, mexer nas ferramentas.” O contato direto com os equipamentos trouxe novas perspectivas. “Eu não sabia o nome de ferramenta, de interruptor, de junção. Só ouvia falar.”
Entre as participantes indígenas está Maria Rosineide Cardoso Ferreira, da aldeia Mapirizinho, da etnia Kumaruara. Ela relata que nunca havia participado de um curso sobre eletricidade. “Eu nunca mexi com negócio de eletricidade, mas o que me chamou atenção foi fazer a ligação.” Durante a oficina, aprendeu a montar circuitos e instalar componentes básicos do sistema elétrico residencial. “De pouquinho em pouquinho a gente vai aprendendo.”
A experiência coletiva também marcou sua participação. “É a primeira vez que eu tô vendo uma formação só de mulherada.” Para ela, o aprendizado não termina com o fim da oficina. “Quando chegar na minha aldeia eu repassar para os parentes que estão curiosos.”

Na comunidade Nova Canaã, no rio Maró, a energia ainda depende de geradores movidos a combustível, ligados apenas algumas horas por noite. A moradora Lene Piedade explica que a ausência de energia constante limita serviços básicos. “A gente não pode ter um posto de saúde porque não tem como armazenar os remédios.” Para ela, a formação pode ajudar a enfrentar essas dificuldades dentro da própria comunidade. “Como a gente mora em uma comunidade bem distante, qualquer problema que a gente possa resolver já tendo uma pessoa lá fica muito mais fácil.”
Ao longo da semana de atividades no CEFA, as participantes passaram por exercícios práticos de instalação elétrica residencial, montagem de sistemas solares e manutenção de equipamentos. A metodologia combina aprendizagem técnica com momentos de conversa sobre a vida nas comunidades. “A gente procura promover também um momento de escuta, uma roda de conversa, onde não vamos falar só de energia técnica, mas da nossa energia enquanto mulheres”, explica a coordenação da oficina.
A expectativa dos organizadores é ampliar o número de turmas e fortalecer uma rede de mulheres capazes de atuar como referência em suas comunidades. “Elas estão mostrando que sabem muito e que os homens nas comunidades vão procurar elas quando precisar ajustar algum equipamento.” Ao final da formação, o desejo expresso é simples e direto: “Que venham mais mulheres eletricistas do sol.”
Fotos: Gerdeson Oliveira.















