A intensa logística de prevenção ribeirinha: como chegam às aldeias e comunidades kits para enfrentamento à covid-19

Colaboradores, apoiadores, voluntários e parceiros somam esforços para atender comunidades de diferentes territórios para evitar contaminações do coronavírus.

Domingo, 14 de março. Um mutirão se organiza para carregar 12 toneladas de kits de higiene e prevenção com destino às trinta e três comunidades nas regiões do Rio Tapajós em Santarém e Rio Cupari em Aveiro. No dia seguinte, colaboradores do Saúde e Alegria e parceiros do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Santarém – STTR, Conselho Indígena Tapajós Arapiuns – CITA, Bloco dos Heróis e o Quarto Grupamento de Bombeiros Militares – 4⁰GBM seguem viagem para a missão.

É grande o desafio de montar uma logística como esta, explica Ana Daiane colaboradora do PSA: “A gente tem que programar dia por dia: o que as pessoas a bordo irão comer, traçar a rota do dia e calcular o horário de uma localidade para outra. Se as entregas irão acontecer de lancha ou de barco… onde ancorar a embarcação e pernoitar com segurança por conta da dinâmica do tempo amazônico… Tudo isso vai pra ponta da caneta”.

O roteiro da viagem é validado com a tripulação do barco antes do embarque e qualquer mudança é discutida com todos. Um processo construído coletivamente, ressalta Daiane: “Antes disso há reuniões com os parceiros atuantes no território a fim de alinhar roteiro, definir quantas pessoas irão representando cada instituição para evitar aglomeração na embarcação”.

Após a reunião, é hora de manter contato com as lideranças para conseguir dados atualizados do quantitativo de famílias da localidade. Com esses dados em mãos, é repassada lista para o Setor de Compras do PSA, e somente após isso é iniciado o processo de montagem dos Kits de proteção. “Geralmente, é necessária uma semana para darmos conta de montar tudo. Aí vem o dia D para embarque do material nos transportes, que chamamos de Pancadão. Mobilizamos voluntários e parceiros para essa atividade que acontece um dia antes da saída para campo. Sempre seguindo os protocolos e orientações de saúde”- diz.

A expedição da campanha #ComSaudeeAlegriaSemCorona é fruto de inúmeras parcerias, desde diálogos e negociações com os financiadores que possibilitam que as doações aconteçam, aos parceiros que atuam no trabalho pesado de montagem dos kits, embarque e distribuição. A mega operação enfrenta mau tempo, rios agitados, comunidades localizadas em pontos distantes da atracação, subidas íngremes etc.

O 4º GBM estreou nesta edição que durou uma semana. “É a primeira vez que o Corpo de Bombeiros do Pará cria essa parceria com o Projeto Saúde e Alegria para levar um pouquinho do Estado pra essas comunidades da região do Tapajós. Aqui é um vínculo com as comunidades que são bastante desassistidas e para fazer com que elas se sintam um pouco mais inclusas” – explicou o cabo do Corpo de Bombeiros, Amaro Reis.

Para os militares, a prevenção é o maior recurso para proteger as populações que vivem isoladas, mas que também correm risco de contaminação. “Pra gente é uma satisfação tanto pelo fortalecimento dessa parceria para assistir da melhor maneira essas comunidades. Nós entendemos que um contágio que possa ser evitado, é um leito que a gente deixa de ocupar nos hospitais. Um apoio nosso aqui converge para outras ações” – disse o Cabo R. JUNIOR.

Equipe em jornada no Rio Tapajós. Foto: Walter Oliveira/PSA.

Durante o descarregamento dos kits, educomunicadores do PSA conversam com as lideranças das comunidades que recebem os materiais, sobre a importância de usar os kits para a higienização da casa e proteção individual. Eles explicam como usar cada item e reforçam o pedido de evitar aglomerações e saídas desnecessárias à cidade.

“Muitas pessoas da comunidade não podem sair e o Projeto Saúde e Alegria trazendo já contribui para a higienização. Nós não podemos baixar a guarda. Precisamos nos prevenir, higienizando as mãos, usando álcool em gel, máscara” – Dener Rodrigues – coordenador da comunidade Suruacá.

“Muitas comunidades não têm acesso para se deslocar até a cidade para comprar esses materiais que são necessários para a prevenção da covid-19” – Jucinalva Bentes, Suruacá.

“Aqui pra nós o álcool em gel é difícil. Pra gente ter é preciso ir em Santarém e é muito difícil ter que ir lá” – Júlio Cardoso, Novo Progresso do Capixauã.

“Nós não temos onde comprar álcool em gel. Muitas famílias são carentes e nós passamos bastante necessidade nessa região da Resex. Esse álcool é muito importante para prevenir a covid-19 porque na nossa comunidade muitas pessoas já pegaram a doença e nós não temos muitos meios de conseguir chegar na cidade. Por isso nós trabalhamos muito com a prevenção” – Marli Oliveira, Pedra Branca.

“Eu acho muito importante a prevenção do Corona para que nós possamos estar atualizados. Nós precisamos dessas instruções porque nós moramos no sítio” -.Ana Maria,  São Francisco das Chagas.

Descarregamento coletivo nas comunidades. Foto: Walter Oliveira/PSA.

Ao todo nesta última expedição atendeu as comunidades: Vila Franca, Maripá, Santi, Curipatá, Anumã, Carão, Pedra Branca, Capixauã, Novo Progresso do Capixauã, Suruacá, Ukena, Vila Amorim/Aldeia Marabaixo, Cabeceira do Amorim, Parauá/ Aldeia São Francisco, Surucuá/ Aldeia São Pedro, Paricatuba, Vista Alegre do Muratuba, São Tomé, Rosário, Pau da Letra, Boim, Tucumantuba, Nuquini, Nova Vista, Samauma, todas no município de Santarém e Anduru, Cametá, Pinhel, Escrivão, Camarão, Uruará, São Francisco das Chagas e São Francisco do Godinho localizadas no município de Aveiro. Outras dezoito já haviam recebido os itens através da parceria com CITA e FUNAI: Aldeia Solimões, Aldeia Vista Alegre do Capixauã, Aldeia Araçazal, Aldeia Mapiri, Enseada do Amorim, São Caetano, Pajurá, Limãotuba, Jwipixuna, Brinco das Moças, Boa Sorte, Muratuba, Mirixituba, Jauarituba, Jatequara, Santo Amaro, Paranapixuna e Jaca.

Rio e chão: banzeiros e atoleiros

Já dizia Caetano Scannavino, coordenador da ONG: “Uma das coisas mais desafiantes se tratando da Amazônia é fazer a coisa chegar lá no interior do interior”. Seja por rio ou por estrada, chegar nas comunidades e aldeias é um grande desafio.

Nas comunidades do Lago Grande, parte da viagem é feita na travessia dos caminhões com a carga por meio de balsas, até chegar na estrada Translago e percorrer as comunidades. No percurso, durante o período de chuvas, os veículos enfrentam atoleiros e precisam ser rebocados. Já no período de seca, os buracos tomam conta das estradas, dificultando a passagem dos caminhões.

Em comunidades de Várzea, a dinâmica é totalmente diferente por via fluvial. A logística depende da enchente e vazante dos rios. Na baixa, as embarcações precisam ancorar distante da margem dos rios. É preciso desembarcar os kits em rabetas e lanchas no meio do rio para chegar até às comunidades. Há ainda as adversidades com mau tempo e formação de banzeiros.

Já em áreas do Planalto, o transporte é feito por terra, como no caso do Eixo Forte. As áreas são relativamente próximas ao centro urbano e ainda assim, revelam seus desafios com a falta de estrutura dos ramais repletos de areões.Campan

Campanha também conta com o apoio de parceiros na logística, como o B/M Gaia que colabora nas distribuições. Foto: Leonardo Milano.

Apesar de todos os ‘perrengues’ enfrentados pelas equipes, em apoio direto às populações, a Campanha Com Saúde e Alegria Sem Corona entregou até agora 21.861 kits de higiene e proteção e 6.106 kits familiares de ajuda alimentar.

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