Abaré II inicia atendimentos após reinauguração em seminário sobre unidades fluviais de saúde

Barco Hospital Abaré II foi reinaugurado na última terça-feira (07). Unidade de Saúde Fluvial iniciou expedição para 38 comunidades do alto e médio Arapiuns, para cerca de 6 mil moradores 

A bordo do novo Abaré II, Superman se preparava para mais uma missão: levar saúde bucal para crianças ribeirinhas da Amazônia. Vestido com trajes do super herói, o odontopediatra Hendrick Abreu, encontra na ludicidade, um caminho para levar saúde e alegria para as crianças atendidas no consultório odontológico fluvial: “Eu trabalho de super homem, capitão américa e batman pra tirar o medo da criança. Eu começo a brincar para criança não sair traumatizada. Isso me motiva” – comenta.

O profissional é um dos dez, dentre médicos, enfermeiros e farmacêuticos que embarcaram no dia da reinauguração do barco, para a expedição que tem a meta de realizar 6 mil atendimentos, ressaltou a assessora de rios da SEMSA, Tangara Santos: “É um marco histórico que vai realizar o sonho de uma população ansiosa por esses atendimentos”.

A unidade hospitalar fluvial foi adquirida em 2011 pelo Projeto Saúde e Alegria com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES. Foi  repassada na forma de comodato à Prefeitura de Santarém para atender à região do Arapiuns, mas  após alguns anos funcionando apresentou problemas de manutenção, tendo que parar as operações, precisando de reparos.

As reformas aconteceram entre 2021 e 2022 em meio às dificuldades e restrições com a pandemia de covid-19. Além da revitalização estrutural, serviços de pintura, instalação de equipamentos náuticos, de comunicação e segurança, ganhou novos e modernos equipamentos hospitalares e EPIs.  Isso foi possível graças a uma soma de esforços em grande parte apoiada com recursos do Projeto Saúde e Alegria através de seus parceiros como o Programa Salvando Vidas do BNDES, a Fundação OAK, Takeda, e contrapartidas da Prefeitura de Santarém e de  emenda parlamentar do Deputado Airton Faleiro para aquisição de equipamentos.

Para o médico e fundador do Projeto Saúde e Alegria, Eugênio Scannavino, o retorno da embarcação representa uma grande conquista para as populações que ansiavam pelo retorno dos atendimentos fluviais: “Muita emoção nesse dia depois de muito esforço para recuperação dessa embarcação. Foi uma luta do Saúde e Alegria, mas também desse conjunto de parceiros, todos colaborando da sua forma para essa conquista”.

“Estou muito feliz em poder participar dessa parceria, em poder levar mais qualidade de vida para as famílias ribeirinhas. Saúde é um direito de todos nós, e precisamos fazer com que chegue a todos” comentou o deputado federal Airton Faleiro, autor de emenda destinada à Prefeitura para compra de equipamentos do barco.

Reformado, Abaré II seguiu para atender populações de 38 comunidades do Rio Arapiuns. Foto: Daniel Govino.

O evento foi importante para comemorar o fortalecimento da estratégia de Saúde da Família Fluvial entre parceiros e apoiadores de longa data do Projeto Saúde e Alegria. “O BNDES é um parceiro histórico do Saúde e Alegria desde 1987 na criação da instituição, depois um apoio ao Abaré II na sua primeira versão e agora esse apoio atual, que a gente está muito feliz de estar podendo fazer essa reinauguração”, disse João Paulo Pieroni, Chefe do Departamento de complexo industrial e de serviços de saúde do BNDES.

“A Takeda vem há alguns anos apoiando o Saúde e Alegria, nas rodadas do Abaré I. A companhia acredita do projeto e no trabalho da instituição e estamos felizes em apoiar esta nova etapa” – Marcela Simões, Especialista em responsabilidade social corporativa da Takeda Brasil.

Mas a alegria maior foi dos representantes das comunidades presentes no evento. Rosildo Sousa, Agente Comunitário de Saúde de Cachoeira do Maró, localizada na região do Rio Arapiuns, comentou como a notícia foi bem recebida pelos comunitários: “Fazia muito tempo que a gente sonhava com essa volta do Abaré II. A gente tem uma grande dificuldade de vir pra Santarém. Ficou muito difícil a questão da saúde e agora graças a Deus, hoje estamos recebendo de volta e estamos muito felizes”.

Com a embarcação operando, pacientes não precisarão se deslocar das comunidades, percorrer longas distâncias e enfrentar longas filas para ter o atendimento básico, comemorou Raquel Tupinambá, liderança indígena: “A inauguração do Abaré II é um muito importante para as populações ribeirinhas e indígenas da região do Rio Arapiuns porque é muito difícil a saúde chegar nessas regiões”.

Fábio Tozzi, médico coordenador de saúde do PSA aponta avanços e desafios das Unidades de Saúde Fluvial. Foto: Pedro Alcântara/PSA.

Um alento para quem acompanha de perto a carência das populações tradicionais, como a Presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém, Ivete Bastos: “A região é sofrida com essa falta da política pública da saúde, é carente no atendimento médico, nos postos. Nós estamos recebendo essa volta com muita satisfação. É uma esperança que se renova, levando essa política pública da saúde” – disse.

O Prefeito de Santarém, que agora passa a administrar novamente a embarcação para levar os atendimentos às comunidades, garante que “com a chegada do Abaré II vamos dar um plus no atendimento para a população do Rio Arapiuns. É um momento de renovação em que reafirmamos a importância da parceria com o Saúde e Alegria”.

Na oportunidade, um convênio de cooperação técnica foi firmado entre o PSA e a Prefeitura para que a organização possa continuar atuando no apoio aos atendimentos, com foco em ações complementares de educação em saúde, o controle social projetos especiais,

Nós poderemos ver os princípios do SUS, de integralidade, universalidade e equidade  chegarem nas comunidade, podendo levar consultas médicas, serviços odontológicos e demais programas, complementa a assessora de rios da SEMSA, Tangara Santos.

Convênio foi assinado durante Seminário que discutiu modelo de saúde pública ribeirinha em Santarém. Foto: Pedro Alcântara/PSA.

Seminário discute avanços e desafios do modelo de saúde da família fluvial  

Como parte da programação da última terça-feira do dia 07/06,  antecedendo a reinauguração,  aconteceu o Seminário que abordou a importância, avanços e desafios para consolidação da política pública de Saúde da Família Fluvial a partir da experiência de Santarém. O evento aconteceu no auditório do Centro de Informação Ambiental – CIAM, em Santarém e contou com a presença de representantes do Projeto Saúde e Alegria, Prefeitura de Santarém, Secretaria Estadual de Saúde, Ministério da Saúde, Conasems, Cosems, BNDES, entre outros parceiros de órgãos públicos e da sociedade civil.

Discutiu estratégias para consolidação do modelo pioneiro que inspirou a política de Saúde da Família Fluvial. “É uma política adaptada para a realidade da Amazônia onde a gente oferece a saúde na porta das comunidades, onde a gente leva médico, dentista, laboratório, vacinas. Neste seminário estamos recuperando o histórico do modelo Abaré, e vendo quais os desafios que temos pela frente. Hoje, por exemplo, temos mais de 105 projetos de embarcações espalhadas pela Amazônia e Pantanal, mas apenas 34 funcionando. Precisamos avaliar com os órgãos públicos como melhorar”, explicou o Médico e coordenador de saúde do PSA, Fábio Tozzi.

“Levar saúde a quem precisa com qualidade é uma condição que precisa de estrutura, para dar condição ao profissional de fazer o atendimento onde a comunidade esteja”, disse Wilames Freire, Presidente do Conasems. O representante explicou que a entidade tem trabalhado junto ao Governo Federal defendendo o aumento de investimentos na atenção primária com a criação da Secretaria da Atenção Básica, que, segundo ele, sempre foi uma fragilidade, pois os recursos da saúde sempre priorizam a média e alta complexidade.

Os participantes destacaram a necessidade de mais investimentos federais para que os municípios consigam melhor gerir as UBSFs.  “A diferença do contraste do financiamento da educação e da saúde são gritantes. Na educação a prefeitura às vezes tem saldo e precisa fazer rateio para cumprir os 70% que determina a lei. Mas quando se trata da saúde é gritante a diferença, ficamos tendo que escolher o que vai pagar”, disse  Prefeito de Santarém, Nélio Aguiar.

“É preciso rever também os parâmetros financeiros da portaria que regulamenta o financiamento das unidades fluviais, pois quando foi criada em 2010 a realidade econômica do país era uma e hoje, com a inflação, por exemplo, não conseguiram executar as mesmas despesas que antes”.

Abaré I, a embarcação mãe

Foi em Santarém onde tudo começou, através do Barco-hospital Abaré I, implantado em 2006 pelo PSA em parceria com as Organizações, Conselhos e Prefeituras locais para atender as comunidades do Tapajós. O bem sucedido modelo de atenção básica chamou a atenção do Ministério da Saúde, inspirando a estratégia de Saúde da Família Fluvial, política pública lançada em 2010 para apoiar os municípios ribeirinhos com barcos de atendimento, para as regiões da Amazônia e do Pantanal.

Atuando nesta realidade há cerca de três décadas, inicialmente promovendo ações de educação em saúde, saneamento e prevenção, o PSA via a necessidade de avançar na construção de uma solução resoluta e com escala para o atendimento médico regular em comunidades de áreas remotas.

A situação começou a melhorar em 2006, quando o Projeto Saúde e Alegria se organizou para colocar nas águas do Rio Tapajós o primeiro barco hospital, o Abaré – nome escolhido pelas comunidades, que em tupi significa “amigo cuidador”. Contou com o suporte da ONG holandesa Terre Des Hommes (TDH), que financiou sua construção, repassando-o via comodato ao PSA, além de apoiar as operações nos anos iniciais.

Em parceria com as prefeituras,  o barco passou a atender cerca de 15 mil ribeirinhos de 72 comunidades das áreas rurais dos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro, através de rodadas de visitas com frequência de retorno a cada 40 dias.

O serviço incluía todos os programas então previstos pelo Ministério da Saúde no campo da atenção básica: saúde da família, planejamento familiar, saúde da criança e imunizações, saúde da mulher e pré-natal, saúde oral, atendimentos médicos e exames de rotina, pequenas cirurgias e atendimentos de emergência.

A partir da experiência em mobilização comunitária do Projeto Saúde e Alegria, o modelo incluiu também um trabalho de educação e prevenção, com o uso da arte e do lúdico para promover boas práticas de higiene, cuidados pessoais, prevenção às DST e HIV, alimentação e nutrição, aleitamento materno, direitos das crianças e adolescentes e da mulher.

“Ao invés do vírus da doença, é preciso promover o vírus da saúde”, brinca Eugênio Scannavino, que lembra o lema de todo trabalho: “Saúde, alegria do corpo, e Alegria, a saúde da alma”.

Uma política pública de saúde adequada à realidade da Amazônia

A saúde básica é de competência dos municípios, que na Amazônia são do tamanho de países. Não são fáceis os desafios de uma Prefeitura como a de Altamira/PA, por exemplo, para fazer chegar a atenção básica junto aos interiores, com cidadãos dispersos em uma área maior que a Grécia ou Portugal.

“Os mecanismos de arrecadação atendem um padrão nacional que não foi desenhado para a realidade amazônica, com longas distâncias, dificuldades de acesso, transportes, comunicações e energia.  Os custos logísticos pros serviços assistenciais chegarem na ponta são muito mais altos do que em qualquer outra região do país.  Sem políticas adaptadas e estratégias diferenciadas para a região, a conta não fecha”, explica Caetano Scannavino, coordenador do PSA.

Com o funcionamento do Abaré I, foi possível planejar os custos operacionais e os recursos humanos a partir de uma configuração adaptada para atender a realidade ribeirinha. Os resultados se demonstraram animadores tanto para as comunidades beneficiadas quanto para os entes envolvidos com a saúde na Amazônia.

“Alcançamos uma resolutividade de 93%, com apenas 7 a cada 100 pacientes sendo encaminhados para os centros urbanos. Podendo resolver de forma mais ágil no próprio local, o Abaré ajudou a desafogar as unidades urbanas, reduzir os custos com internações, diminuir aquelas situações de pacientes que chegavam na cidade com doenças antes simples, mas que se agravaram por falta de atendimento em tempo hábil, tornando mais complexo e oneroso o tratamento”, complementa Caetano.

Diante da visibilidade alcançada, dos ganhos de escala, dos impactos positivos nos indicadores de saúde, das parcerias estabelecidas com o poder público, do controle social através dos Conselhos, o Modelo Abaré chamou a atenção do Ministério da Saúde (MS), que passou a estudá-lo e construir juntamente uma proposta de inclusão ao SUS.

Príncipe Charles, na sua visita ao país em 2009, reservou um dia de sua agenda para conhecer o Abaré e o trabalho do Projeto Saúde e Alegria.

“Nós sempre tivemos como diretriz que nosso trabalho como ONG não era ocupar o papel do estado, mas somar esforços, cocriar modelos demonstrativos que possam ser absorvidos pelas políticas públicas”, explica o fundador do PSA, Dr. Eugênio Scannavino.

Baseado no modelo implantado no Tapajós, o Ministério da Saúde lançou em 2010 a política de Saúde da Família Fluvial, com abrangência para toda a região amazônica e pantaneira. Em dezembro do mesmo ano, o Abaré I foi integrado ao SUS, e credenciado como a primeira Unidade Básica de Saúde Fluvial (UBSF) do Brasil.

Desde então, os municípios da região passaram a contar com o apoio do MS para viabilização de barcos de atendimento em suas áreas ribeirinhas. A política prevê repasses federais hoje da ordem de 1,1 milhão de reais anuais por embarcação, para uso exclusivo no custeio das operações, como despesas com combustíveis, medicamentos, tripulação, equipe médica, entre outras necessidades.

“Com a política pública, os municípios passaram a ter melhores condições infraestruturais e financeiras para implementar e replicar essa experiência que a gente começou no Tapajós para os cidadãos das áreas mais longínquas. Entendemos que cumprimos nosso papel como executor de frente, repassando então a gestão plena para o poder público. Daí em diante, passamos a apoiar o controle social e a replicação do modelo” – explicou Eugênio Scannavino.

Atendimentos médicos, odontológicos e de educação em saúde são realizados a bordo do Abaré I.

Além da gestão, o Abaré se tornou também patrimônio público, em um arranjo pensado para incrementar a geração de conhecimentos e disseminação de boas práticas. Em agosto de 2017, foi oficializado o repasse definitivo da embarcação pela TDH para a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Hoje, o barco é mantido através de um acordo de cooperação entre a Universidade, responsável pela gestão naval, e a Prefeitura de Santarém, responsável pela gestão das ações assistenciais através da SEMSA, como proponente da política de Saúde da Família fluvial junto ao Ministério.

Diante disso, além dos atendimentos, o Abaré I passou a ter condições de diversificar o seu papel social, também como um barco-escola, voltado para o ensino, pesquisa, extensão, receptivos de estudantes, voluntários e residentes, formação de novos profissionais para atuar na região e avançar na interiorização da medicina.

“O Abaré possibilita a vivência de nossos estudantes a realidade de nossas comunidades na Amazônia. Também tem recebido estudantes de várias partes do país. Os laboratórios permitem às equipes médicas embarcadas  o diagnóstico e o mapeamento da situação de saúde de forma célere. vice-reitora” – ressaltou a vice-reitora da Ufopa, Aldenize Xavier.

Durante a Pandemia da Covid 19, o Abaré levou assistência de saúde, vacinação e ajuda humanitária às comunidades isoladas.

Replicação do modelo, filhos do Abaré I: o Abaré II e outras unidades fluviais pela Amazônia 

Com os avanços da experiência na forma de política pública, o Programa de Saúde do PSA se voltou para o aprofundamento, disseminação e expansão do modelo. Em 2011, o PSA adquiriu o Abaré II, uma segunda embarcação repassada à Prefeitura de Santarém para atender à região do Arapiuns. Após os problemas de manutenção, tendo paralizado as operações, em 2022 passou por uma ampla reforma e está sendo reinaugurado.

Além dele, segundo o Ministério da Saúde, atualmente existem mais de 60 projetos de embarcações aprovados. No estado do Amazonas, por exemplo, foi inaugurada em 2019 a unidade de Nhamundá, a primeira Unidade Básica da Saúde Fluvial (UBSF) do estado totalmente construída com recursos federais. Nomeada ‘Igaraçu’, que na língua tupi significa Canoa Grande, a USBF tem 24 metros de comprimento e conta com consultórios de atendimento médico, enfermagem e odontológico. Seus aposentos internos acomodam farmácia, laboratório, salas de vacinas, curativo, coleta de material e esterilização.

Além do Pará e Amazonas, outras embarcações foram construídas (ou estão em processo de construção) nos estados do Acre, Amapá, Mato Grosso, Rondônia, Roraima, Tocantins, Maranhão e na região do Pantanal sul-mato-grossense.

“O anseio da população é sempre voltado para a melhoria da qualidade de vida. A gente espera que a população entenda que esse patrimônio é do povo. E quem deve monitorar é a própria população. A Secretaria de Saúde é a responsável pela gestão dos barcos, mas é preciso que a população acompanhe todo esse processo, participe e dê as informações aos Conselhos Municipais de Saúde, porque é assim que a gente pode ir pra frente. O importante é que a população receba um atendimento digno como sempre almejou” – finaliza Manoel Edvaldo Santos, liderança do Baixo Amazonas.

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