Tecnologias sociais garantem água potável a quilombolas da várzea de Óbidos

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Tecnologias sociais do Programa Cisternas chegam a 34 famílias na comunidade Nossa Senhora das Graças, com participação comunitária e execução do Projeto Saúde e Alegria

O acesso à água de qualidade segue como um dos principais desafios para comunidades ribeirinhas e quilombolas da Amazônia, especialmente em áreas de várzea, onde a presença abundante de rios não garante condições seguras para consumo, higiene ou preparo de alimentos. Nesse contexto, tecnologias sociais voltadas à captação e ao armazenamento de água da chuva vêm sendo implementadas como estratégia para ampliar o acesso a direitos básicos em territórios historicamente marcados por desigualdades.

Na comunidade quilombola Nossa Senhora das Graças, localizada na região de várzea do município de Óbidos/PA, 34 famílias receberam Tecnologias Sociais do Programa Cisternas, que integra uma política pública do Governo Federal, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

A entrega das tecnologias marca uma etapa do trabalho desenvolvido na Amazônia pelo PSA, que atua na implementação de soluções de infraestrutura comunitária em territórios de difícil acesso. Carlos Dombroski, especialista em gestão comunitária do PSA, destacou que a ação faz parte de um conjunto mais amplo de iniciativas voltadas às populações da várzea em municípios como Óbidos, Oriximiná e na Resex Tapajós-Arapiuns em Santarém e Aveiro. Ele destaca que, mesmo em uma região cercada por água, a disponibilidade de água própria para consumo ainda é limitada, o que torna esse tipo de tecnologia essencial para o cotidiano das famílias.

Entrega de tecnologias sociais do Programa Cisternas beneficia 34 famílias em área de várzea na Amazônia.

A estrutura instalada nas residências permite a captação da água da chuva a partir do escoamento de uma das queda do telhado das casas dos beneficiários. O sistema realiza um primeiro descarte, eliminando as impurezas iniciais presentes nas primeiras águas captadas e, posteriormente, a água é direcionada para os reservatórios”, destaca Rodrigo Souza, gestor do Núcleo do Programa de Infraestrutura Comunitária do Projeto Saúde e Alegria. Segundo ele, o sistema inclui reservatórios com diferentes capacidades — de mil e cinco mil litros — além de pontos de uso dentro das residências, como banheiro, pia e acesso externo à água. Além de contemplar os beneficiários com filtro de barro.

O PSA atua como gestor do programa no Pará, acompanhando a execução em territórios quilombolas e unidades de conservação. Além das 34 tecnologias entregues em Óbidos, já foram implementadas mais de 150 TS em Oriximiná e outras 521 na região da Resex Tapajós-Arapiuns, abrangendo municípios como Santarém e Aveiro.

Sistema instalado capta, filtra e armazena água da chuva para uso doméstico nas residências.

A implementação do Programa Cisternas está vinculada ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), responsável pela coordenação do programa em nível nacional. A secretária de Segurança Alimentar e Nutricional, Lilian Rahal, ressalta que o acesso à água de qualidade é um direito que deve ser assegurado pelo Estado, especialmente em regiões onde a população depende de fontes inadequadas para atividades básicas. Ela aponta que, mesmo em áreas com grande disponibilidade hídrica, como a Amazônia, a água disponível nem sempre atende às condições necessárias para consumo humano.

“As pessoas que vivem aqui precisam ter água de qualidade, como todo cidadão brasileiro tem direito.” — Lilian Rahal, secretária de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS.

A atuação do governo federal se apoia em instrumentos como o Cadastro Único, que permite identificar demandas em diferentes regiões do país. No entanto, a organização comunitária e a atuação de entidades locais são apontadas como fundamentais para viabilizar a chegada das políticas públicas aos territórios. Nesse processo, organizações como o PSA e o Instituto Ágata desempenham papel de articulação e execução.

Comunidade quilombola participou de todas as etapas do projeto, da formação à execução das obras.

De acordo com dados apresentados pela equipe do MDS, o Programa Cisternas já ultrapassou a marca de 1,3 milhão de tecnologias implementadas em todo o país, com atuação histórica no semiárido e expansão recente para a Amazônia. Desde a retomada do programa, foram contratadas mais de 190 mil novas cisternas, com previsão de ampliação nos próximos anos.

Além da infraestrutura física, o processo inclui etapas de formação comunitária. Oficinas de gestão da água e saneamento ambiental são realizadas com as famílias beneficiadas, abordando o uso adequado das tecnologias e promovendo a participação dos moradores na construção das estruturas. Segundo o engenheiro sanitarista Lucino Lousada do Instituto Ágata, o diálogo com carpinteiros e lideranças locais foi fundamental para definir aspectos técnicos como altura, tipo de madeira e resistência das construções diante das condições ambientais da várzea.

Programa Cisternas é executado na região pelo Projeto Saúde e Alegria em parceria com o Instituto Ágata.

A execução das obras também envolveu a capacitação de moradores, gerando oportunidades de trabalho dentro da própria comunidade. Elesania Alvarenga, presidente do Instituto Ágata, relata que os próprios comunitários participaram da construção das tecnologias após passarem por processos de formação, o que contribuiu para a circulação de renda local e fortalecimento das capacidades técnicas no território.

Para as organizações quilombolas, a chegada das tecnologias representa um avanço no enfrentamento de uma demanda histórica. Verinha Santos, vice-coordenadora da associação que representa comunidades remanescentes de quilombos em Óbidos, aponta que o acesso à água de qualidade deve alcançar outras localidades do território. Ela ressalta que ainda há comunidades que enfrentam dificuldades, especialmente no período de estiagem, quando o acesso à água se torna mais limitado.

“Isso veio trazer um benefício muito grande… vai diminuir o sofrimento delas, principalmente no tempo da seca.” — Verinha Oliveira dos Santos, liderança quilombola.

Técnicas tradicionais quilombolas foram incorporadas na construção das estruturas adaptadas à várzea.

Entre os moradores, a mudança é percebida no cotidiano. Adenilson Azevedo, da comunidade Nossa Senhora das Graças, relata que antes da instalação das cisternas era necessário buscar água diretamente no rio, inclusive em períodos de seca, quando as dificuldades se intensificam. Com a nova estrutura, a água passou a estar disponível dentro da residência, reduzindo o esforço e o tempo dedicado a essa atividade.

A experiência de construção das tecnologias também foi destacada pelos moradores envolvidos diretamente nas obras. A participação na montagem das estruturas foi descrita como uma oportunidade de aprendizado técnico e de envolvimento coletivo, ampliando o conhecimento local sobre soluções de saneamento adaptadas à realidade da várzea.

Estruturas incluem reservatórios, banheiro, pia e ponto de água externo para uso das famílias.

A diretora de promoção da inclusão produtiva rural e acesso à água do MDS, Camille Saab, avalia que a implementação das tecnologias representa a concretização de um direito básico, com impactos diretos nas condições de saúde e na qualidade de vida das famílias. O acesso à água segura reduz a exposição a doenças, facilita práticas de higiene e reorganiza a rotina doméstica.

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