“O PSA é essa porta, me proporciona várias oportunidades” – Ana Daiane Lopes Costa

“Eu nem sabia que existiam a maior parte das profissões”, lembra Ana Daiane Lopes Costa, quando pensa na sua infância na comunidade de Maripá, localizada na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Ana cresceu comendo o que a mãe plantava e os vizinhos pescavam e se banhando nas águas verdes do Rio Tapajós. Cresceu livre, declara. “Lembro da leveza que era e ainda é viver lá”.

Hoje, aos 26 anos, Ana desenvolve tantas atividades que não consegue definir sua exata profissão. Atua desde como locutora de rádio até agente de mobilização comunitária e brigadista de incêndios. “Eu circulo por todas as linhas de desenvolvimento, comunicação, assistência técnica, turismo, logística e compras”. A atuação da jovem se dá dentro do Projeto Saúde e Alegria (PSA), onde trabalha desde 2018.

Do exercício de recordar seus sonhos de criança, ela tem a certeza apenas de que nem sabia que poderia, um dia, ser ativista e trabalhar em uma ONG. Principalmente, Ana destaca que nunca se imaginou falando em público. Atualmente, o desafio parece uma limitação distante para a jovem, que já chegou a coordenar equipes inteiras da campanha de combate a pandemia de Covid-19 dentro do PSA.

“Eu achei que não fosse dar conta, ainda mais sendo mulher, de comunidade, baixinha e com cara de adolescente”, brinca. Mas foi justamente por meio de sua identidade que Ana colocou a coordenação em prática. “Eu dizia: Olha, sou a única mulher aqui, mas as coisas vão ser desse jeito”, admite, categórica.

Ana Daiane, 26, no viveiro do Centro Experimental Floresta Ativa. Fotos: Júlia Dolce.

E o começo desse processo, ela acredita, tem base em um autoconhecimento apurado. “Você tem que se perceber para se entender”. Ana se percebe como extrativista, embora explique que, para os moradores da Resex, não há fronteira entre as comunidades: “Somos todos extrativistas, ribeirinhos, indígenas, quilombolas, caboclos”.

Quando entrou na universidade para cursar biologia, em 2012, Ana entendeu que mais do que aprender, sua infância na Resex a possibilita ensinar. Ela já vivia na zona urbana de Santarém desde os 14 anos, mas só na graduação entendeu que o sistema no qual havia sido criada era completamente diferente daquele que ela vivia na cidade, onde tem que comprar e pesquisar a origem de cada alimento que come, cada calçado e roupa que veste. “Eu cresci achando que tive uma infância pobre, mas a floresta toda era minha”, resume.Foi durante a faculdade que Ana trabalhou pela primeira vez com o PSA. Em 2015, ela passou em um edital de apoio a iniciativas juvenis e construiu um projeto de horta comunitária em Maripá que se tornou referência para outras comunidades da Resex. “A gente usou técnicas que os professores não conheciam, como a compostagem, ou o trabalho com madeira reaproveitada para cercar a horta. São coisas que a comunidade já fazia e nem se dava conta”.

O trabalho que Ana desenvolve consiste justamente em garantir a autonomia dessas comunidades, mantendo os modos de vida tradicionais, mas auxiliando na redução de distâncias e desigualdades. “Defender a floresta, a diversidade dos povos e a biodiversidade em geral, com certeza, é a maior dimensão do meu trabalho”.

Em uma pausa rápida na organização de um curso de culinária vegetariana e hospedaria ministrado para mulheres comunitárias, ela conta sua história e revela que, hoje, o principal papel de seu trabalho é garantir que mais jovens assumam um lugar de fala, “que outras meninas não tenham que passar o mesmo perrengue que eu e muitas que vieram antes de mim passaram”.

Bater de frente com espaços masculinos, inclusive dentro do PSA, é a forma como ela inspira as meninas de sua comunidade. “Tem duas meninas que sempre falam comigo e acham legal a inquietude com que eu trabalho pra fazer as coisas darem certo. Quero inspirá-las a trabalhar como lideranças”, conta. “É um processo que leva paciência e persistência”.

Ana considera que a principal limitação que acompanhou sua criação extrativista foi a ausência de comunicação. “Entender o que estava acontecendo na cidade e que isso tem total impacto na base transforma vidas. Quando você consegue levar informação real para a comunidade, vê que eles tomam poder daquilo”. Ela reconhece, no entanto, que ainda tem mais facilidade para falar com os comunitários do que de comunicar para fora. Com os anos, Ana se tornou uma das porta-vozes do PSA.

“Eu represento o povo dentro do Saúde e Alegria. Mas falar pelo PSA, com e em nome do projeto, é uma responsabilidade tremenda”. A jovem ainda luta para se reconhecer apta nesse papel. “Quando estou nas comunidades me sinto mais segura para capacitar as lideranças, gerir projetos”. Mesmo que a assuste, ela reconhece que sua função já é, na prática, a de uma liderança comunitária. “Todos nós aqui estamos fazemos política, mesmo que não intencionalmente”.

Nos últimos três anos, Ana conseguiu, por meio de seu trabalho, realizar um dos seus principais planos: rodar todo o território da Resex, parando em cada uma de suas 72 comunidades. “Era um sonho pessoal conhecer meu território. Fiz isso três vezes e ainda conheci praticamente toda a Floresta Nacional do Tapajós e o baixo e médio Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande”.

Se o projeto proporcionou experiências que ela “jamais imaginou vivenciar”, Ana sabe que muitas outras oportunidades a aguardam. Ela tem estabelecida uma data limite para deixar o PSA, data que ela informou no momento em que a perguntaram se ela gostaria de ser contratada. “Minha meta são cinco anos”. Para o futuro, por enquanto, a jovem tem alguns planos pontuais. Pensa em cursar gestão pública, em comprar uma casa e até mesmo em voltar a viver por um ano em Maricá. “O PSA é essa porta, me projeta para outros lugares”.

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Reportagem: Júlia Dolce

Vídeo: Daniel Govino| Trilha sonora: Cristina Caetano

Coordenação editorial: Priscila Cotta e Samela Bonfim

Coordenação geral: Fabio Pena

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