RIO NATURE CLIMATE WEEK: Do Tapajós para o Rio de Janeiro, desafios e soluções comunitárias para enfrentar a crise climática

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Painel promovido pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA) tratou dos muitos desafios da região, como o desmatamento e a contaminação mercurial, mas trouxe também caminhos e soluções para o bem-viver dos povos.

Lideranças indígenas, pesquisadores e representantes do Projeto Saúde e Alegria (PSA) participaram, no dia 3 de junho, da mesa “Amazônia em Debate: O Tapajós Vive!”, realizada durante a Rio Nature Climate Week (RNCW), no Rio de Janeiro. O encontro trouxe vozes do Tapajós para discutir os impactos das mudanças climáticas, do garimpo ilegal e de outros empreendimentos sobre os territórios amazônicos, além de apresentar experiências de adaptação e resiliência desenvolvidas com e/ou pelas próprias comunidades nas áreas de saúde, saneamento, energias renováveis, agroecologia e sistemas alimentares.

Durante o debate, o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Dr. Paulo Basta, apresentou os estudos realizados em terras indígenas Munduruku sobre a contaminação por mercúrio associada ao garimpo. As pesquisas trazem dados alarmantes sobre a saúde das populações. Em média, 6 a cada 10 indígenas apresentaram níveis elevados de mercúrio (nas aldeias mais próximas dos garimpos, 9 a cada 10). Foi feito também um recorte também sobre as mulheres em idade fértil e recém-nascidos. Nas gestantes Munduruku, foram detectados em média níveis 4 a 5 vezes acima do tolerável, já nos bebês recém-nascidos, 2 vezes e meia.

“O que temos encontrado nas aldeias são situações que comprometem diretamente a saúde e o bem-estar das famílias. A contaminação por mercúrio afeta principalmente gestantes e bebês e está ligada ao avanço de atividades econômicas que pressionam os territórios indígenas. São impactos que não atingem apenas o ambiente amazônico, mas também a vida das populações que dependem desses territórios para existir”, disse o Dr. Paulo Basta.

A liderança indígena Alessandra Munduruku chamou atenção para a relação inseparável entre os povos indígenas e os elementos que sustentam a vida nos territórios. “Quando se fala de natureza e clima, se fala da nossa própria existência. Nós não vivemos sem rios, sem floresta e sem clima. As mudanças que estão acontecendo afetam diretamente nossas comunidades. A seca dos rios, o calor intenso, as dificuldades para produzir alimentos e as alterações no comportamento da natureza mostram que o equilíbrio está sendo rompido. Isso afeta não apenas os povos indígenas, mas toda a vida que depende desses territórios”, declarou.

Auricélia Arapiun ressaltou que os povos indígenas precisam ser reconhecidos como protagonistas das soluções para a crise climática e defendeu que a proteção dos territórios esteja no centro das discussões globais sobre o tema. “Há muitos espaços debatendo a crise climática, mas ainda é preciso compreender que nós não somos apenas os mais afetados por ela. Somos parte da resposta. Não será possível enfrentar essa crise sem garantir a proteção dos territórios indígenas, sem respeitar nossos direitos e sem reconhecer os conhecimentos que nossos povos acumulam há gerações sobre o cuidado com a floresta. É a partir dos territórios protegidos que conseguimos construir soluções para o futuro”, afirmou.

O coordenador geral do Projeto Saúde e Alegria, Caetano Scannavino, destacou a importância de aproximar diferentes regiões do país das experiências e conhecimentos produzidos na Amazônia. Para ele, o principal legado do encontro foi permitir que lideranças indígenas do Tapajós compartilhassem suas visões diretamente com um público distante da realidade amazônica.

“Muitas pessoas ainda falam sobre a Amazônia sem conhecer quem vive nela. O mais importante deste encontro foi criar uma ponte para que lideranças do Tapajós trouxessem suas próprias vozes e experiências. Depois de quase quatro décadas convivendo com comunidades e povos indígenas, aprendi que existe um conhecimento profundo sobre cooperação, convivência com a natureza e bem-viver que precisa ser ouvido. Em um momento de crise climática, talvez seja esse um dos principais aprendizados que a Amazônia tem a oferecer ao Brasil e ao mundo”, afirmou.

O coordenador de Gestão Territorial do PSA, Fábio Pena, destacou a importância de criar espaços para que as populações da Amazônia apresentem suas próprias narrativas e experiências. “Trazer lideranças do Baixo e do Alto Tapajós para falar diretamente sobre o que está acontecendo em seus territórios é fundamental para que essas vozes ecoem pelo país. A Amazônia é frequentemente debatida sem que as pessoas conheçam a realidade vivida por quem está lá. Ao mesmo tempo em que mostramos os problemas, mostramos também os caminhos construídos pela união entre povos tradicionais, organizações da sociedade civil e parceiros que seguem acreditando na possibilidade de transformar essa realidade”, afirmou.

Dentre as soluções apresentadas, foram destacadas as tecnologias sociais desenvolvidas a partir da integração entre conhecimento técnico e saberes tradicionais. A coordenadora de Infraestrutura Comunitária do PSA, Jussara Salgado apresentou iniciativas desenvolvidas em parceria com organizações locais para fortalecer a adaptação climática em comunidades amazônicas. Ela destacou que os efeitos das mudanças climáticas vêm se intensificando nos últimos anos e se somam à ausência de políticas públicas voltadas para os territórios mais vulneráveis.

“Pudemos ouvir de quem vive essa realidade todos os dias como as mudanças climáticas, o garimpo e a degradação ambiental afetam diretamente suas vidas. Também vimos que existem soluções sendo construídas nos próprios territórios. O desafio é fortalecer essas iniciativas e ampliar a capacidade de resposta diante de uma emergência climática que atinge toda a sociedade, mas que recai com mais força sobre os povos indígenas e as comunidades tradicionais”, afirmou.

Corredores de Tecnologias Sociais

As tecnologias sociais apresentadas durante o evento são soluções desenvolvidas e adaptadas junto às comunidades da Amazônia para responder aos desafios dos territórios. No Tapajós, essas iniciativas incluem adequações de serviços de saúde, como as UBS da Floresta, Unidades de Saúde Fluviais, sistemas comunitários de abastecimento de água, captação e armazenamento de água da chuva, saneamento, energia solar, conectividade comunitária, comunicação popular, monitoramento territorial e fortalecimento de cadeias produtivas da sociobiodiversidade. Desenvolvidas a partir da combinação entre conhecimentos tradicionais e conhecimentos técnicos, essas experiências têm contribuído para ampliar a autonomia das comunidades, fortalecer a gestão dos territórios e aumentar a capacidade de adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.

“Como bem diz um companheiro de batalha, não é internacionalizar, e sim nacionalizar a Amazônia e amazonizar o mundo”, finalizou Caetano Scannavino, reforçando uma das razões do Projeto Saúde e Alegria ter apoiado como co-realizador a RNCW. “Que tenhamos mais edições como essa”.

Fotos: Carolina Sillis.

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