Saúde na floresta: conheça ações de fortalecimento da vida comunitária na Amazônia

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Unidades Básicas de Saúde, treinamentos regulares de profissionais de áreas ribeirinhas e tecnologias sociais adequadas para a vida nas comunidades são iniciativas lideradas pelo Programa de Saúde Comunitária do Projeto Saúde e Alegria 

O índice de mortandade de crianças por ingestão de água contaminada na Amazônia foi um alerta para o médico sanitarista Eugênio Scannavino na década de 80. Ao chegar na Amazônia se deparou com uma das maiores contradições. Como pode viver rodeado por água e não ter água de qualidade para beber?

“A água é uma coisa que todo mundo precisa, o animal, o passarinho, o ser humano, uma água boa de qualidade limpa. Hoje em dia a água do Tapajós, vocês sabem muito bem como é que ela tá com esse negócio de balsa e essa mistura toda que tem, não é mais aquela água saudável, então a gente tem que beber uma água limpa. Vamos fazer água, vamos levar água” – destaca o fundador e coordenador do PSA.

Dentre as soluções, captação adequada, reservação em caixas elevadas e tratamento com filtragem e cloração. São tecnologias de baixo custo e fácil manutenção, pensadas para garantir autonomia às comunidades. Os impactos são diretos: redução de doenças, melhoria nas condições de higiene e mais segurança no consumo diário.

Foi dessa inquietação que iniciou a jornada de quarenta anos em comunidades da Amazônia. As necessidades são inúmeras, para além do acesso à água. Faltam médicos nas comunidades, as distâncias são gigantes e há falta de saneamento básico como banheiros. Com projetos adaptados para as realidades amazônicas e ações necessárias para prevenção em saúde junto ao Sistema Único de Saúde, as ações testadas ganharam escala, replicabilidade e se tornaram política pública, a exemplo do Barco Hospital Abaré.

Barcos Hospitais

O primeiro barco hospital completa em 2026 vinte anos de existência. O modelo de saúde básica itinerante virou política pública na Amazônia e no Pantanal em 2010, quando o governo federal lançou a estratégia de Saúde da Família Fluvial, e tornou o modelo de navio-hospital uma política com abrangência para as duas regiões.

Com estrutura adaptada à realidade amazônica, o navio-hospital Abaré começou a navegar nas águas do Rio Tapajós em 2006 através do Projeto Saúde e Alegria (PSA), em parceria com as prefeituras locais e com apoio  da ONG holandesa Terre Dês Hommes (TDH), então sua proprietária. Nesse primeiro contato, foram aproximadamente 15 mil ribeirinhos de 72 comunidades das áreas rurais dos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro que passaram a ter acesso regular aos serviços básicos de saúde, com visitas a cada 40 dias, percorrendo longas distâncias e chegando em locais praticamente excluídos da rede pública.

Com 93% de resolutividade – apenas 7 a cada 100 pacientes sendo encaminhados para os centros urbanos- a exitosa experiência tornou-se objeto de estudo do Ministério da Saúde, para então lançar em 2010 a política de Saúde da Família Fluvial para levar, através de barcos de atendimento, serviços regulares de saúde e prevenção para brasileiros que vivem em locais isolados.

A partir dela, o ministério faz repasses federais diretos aos municípios da área de abrangência, que giram em torno de um milhão e cem mil reais anuais por embarcação. São destinados para uso exclusivo das unidades de atendimento no apoio às despesas com combustíveis, medicamentos, tripulação, equipe médica, entre outras necessidades.

“Desde que a iniciativa do Abaré inspirou o governo e virou política pública, os municípios passaram a ter melhores condições para implementar e replicar essa experiência que a gente começou no Tapajós. Com esse apoio garantido, entendemos que nossa missão foi de certa forma cumprida. Repassamos então a gestão do Abaré para as Prefeituras, focando nosso trabalho no apoio às ações complementares, no controle social, e na disseminação do modelo, a começar pela aquisição de uma segunda embarcação, o Abaré II, também repassada para a Prefeitura atender ribeirinhos das outras regiões do município“ – explicou o coordenador do Projeto Saúde e Alegria, Caetano Scannavino.

UBS da Floresta 

Ao longo desses 40 anos já realizou diversas ações com o objetivo de proporcionar melhor qualidade de vida, garantindo integração de esforços e aprimorando tecnologias, como as Unidades Básicas da Saúde. As unidades destinadas às regiões de difícil acesso são equipadas com recursos para o consultório, farmácia e estruturadas para procedimentos básicos, permitindo a realização de atendimentos médicos, vacinação, pré-natal, acompanhamento de crianças e ações de prevenção.

Sem energia, a UBS convencional possui limitação para o armazenamento de vacinas. Na estrutura idealizada pelo Projeto Saúde e Alegria em parceria com as comunidades e com apoio da Fundação Banco do Brasil, recebe energia solar off-grid/híbrida (24h), internet via satélite, eletrocardiógrafo, autoclave, desfibrilador, nebulizador, concentrador de oxigênio, geladeiras para vacinas, kits de atendimento para ACS e macas.

Reestruturada amplia o acesso à saúde, como também fortalece a atenção básica nos territórios, com ações educativas e acompanhamento contínuo das famílias. A lógica é inverter o fluxo tradicional: em vez de a população ir até o serviço, é o serviço que chega até ela, considerando os ciclos das águas, as distâncias e as especificidades culturais da região.

Arte-educação para prevenção em saúde 

Pensando na necessidade de promover cuidados básicos em saúde como higiene das mãos, lavagem adequada dos alimentos e práticas para evitar transmissão de vírus, o Programa Saúde na Floresta e o Programa de Educação, Comunicação e Cultura se uniram para fortalecer a produção dos repórteres comunitários sobre essa temática.

Com a produção audiovisual, radionovelas, esquetes, peças e podcasts, crianças, adolescentes e jovens protagonizam suas histórias e promovem informação. Esses conteúdos são exibidos nas telas das UBS enquanto os pacientes aguardam atendimento. Essa iniciativa também ganhou escala por meio da mensageria junto ao Ministério da Saúde.

“Essa TV vai ficar aí e quando a pessoa estiver esperando ali para ser atendida, pode passar um filme educativo ou ela pode ficar assistindo a uma aula, pode assistir um curso, pode fazer muita coisa com as TV, só não pode ficar olhando besteira” –  destaca Scanavino.

Veja alguns conteúdos aqui:

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