Representantes da Rede Floresta Digital e da Escola de Redes Comunitárias da Amazônia participaram do “Nós na Rede”, em São Paulo, trocando saberes e fortalecendo conexões femininas em torno da tecnologia e da vida nos territórios
Mulheres da Amazônia que constroem, com as próprias mãos, redes de conectividade e solidariedade nos territórios estiveram reunidas no interior de São Paulo durante o encontro “Nós na Rede”, realizado pela LocNet APC em parceria com a Rede Transfeminista de Cuidados Digitais. A atividade reuniu representantes de várias regiões do Brasil, entre elas comunicadoras, educadoras e lideranças da Rede Comunitária Floresta Digital e da Escola de Redes Comunitárias da Amazônia, apoiadas pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA) e DW Akademie.
“Foi um espaço de escuta, de trocas e de construção conjunta. As mulheres trouxeram suas experiências de territórios quilombolas, ribeirinhos e indígenas, mostrando que conectividade é também um ato político e de cuidado”, destacou Adriane Gama, pesquisadora do Projeto Saúde e Alegria.
O evento foi um mergulho em experiências de mulheres e pessoas trans — que atuam em redes comunitárias, tecnologias apropriadas, energia, plantas medicinais, educação, palhaçaria e segurança digital. No convívio coletivo, emergiram trocas afetivas e discussões sobre autonomia, sustentabilidade e o papel das mulheres na construção de tecnologias centradas em suas realidades.
“O encontro me fez perceber que redes comunitárias não são só acesso à internet. Elas envolvem os viveiros, as hortas, os canteiros medicinais e tudo o que as comunidades constroem coletivamente”, contou Darlene Branches, representante do território Abril Vermelho e da Rede Floresta Digital. Para ela, o evento foi também um espaço de autodescoberta: “Voltei animada, com vontade de repassar o que aprendi e fortalecer o setor de comunicação da nossa rede.”
Da região de Barcarena, Pará, Josenite Santos definiu a vivência como “sensacional”. “Passar uma semana na Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista, foi uma experiência que me fez entender o quanto ainda posso fazer pela minha comunidade. O encontro mostrou que autonomia também vem do aprendizado coletivo”, relatou.

Entre as participantes também estava Juliana Albuquerque, comunicadora indígena do povo Baré, da Rede Wayuri e Rádio Nacional dos Povos, no Rio Negro. “A gente percebe que não está sozinha. Existem mulheres potentes, quilombolas, indígenas, jovens e mães que lutam pelas mesmas causas — por territórios vivos e por um futuro mais justo”, disse. “Esses encontros nos fortalecem, nos abraçam e renovam o desejo de continuar lutando, cada uma à sua maneira, pelos direitos e pela floresta em pé.”
Encerrando o encontro, Luisa Bagope, coordenadora de gênero da LocNet/APC, reforçou o propósito do evento: “O Nós na Rede é um encontro entre mulheres e pessoas de gênero dissidente envolvidas na Conectividade Centrada em Comunidades (CCC) em todo o Brasil. Nosso objetivo é criar, fortalecer e expandir laços de afeto e colaboração”, explicou.
Inspirado no formato de um acampamento na natureza, o encontro reuniu lideranças de territórios onde a autonomia tecnológica é trabalhada através das redes comunitárias, com participantes do Norte, Nordeste e Sudeste — ativistas da comunicação indígena, do movimento campesino, da ciência cidadã e dos cuidados digitais. O evento buscou uma metodologia horizontal, em que cada participante pôde ensinar e aprender, gerando uma verdadeira “rede das redes”: “Intelectualidade, arte e afeto se somaram num espaço livre de expectativas de resultado, propiciando experimentações autênticas e criativas. Ficamos muito honradas com cada presença, porque sabemos o quanto é difícil sair do território, ainda mais sendo mulheres que realizam múltiplas funções no dia a dia”, disse.



