Corredor de Tecnologias Sociais do Tapajós fortalece autonomia e bem viver na Resex Tapajós-Arapiuns

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Experiências articuladas entre saúde, saneamento e geração de renda mostram como soluções construídas por comunidades estão transformando o cotidiano na floresta

Na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no oeste do Pará, um conjunto de iniciativas vem demonstrando que é possível enfrentar desafios históricos da Amazônia com soluções simples, adaptadas e construídas junto com as comunidades. Idealizado pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA), o Corredor de Tecnologias Sociais conecta experiências em diferentes territórios da Resex, promovendo melhorias concretas na qualidade de vida de populações ribeirinhas.

O corredor organiza um sistema integrado de soluções que dialogam entre saúde, acesso à água, produção de alimentos e geração de renda, respeitando o modo de vida local. Em comunidades como Anã, essas tecnologias deixam fazer parte do cotidiano. “Não adianta só levar a tecnologia. É preciso envolver as pessoas, para que elas compreendam o cuidado com a água e participem do processo.” – ressalta o médico Eugênio Scannavino, fundador/coordenador do Projeto Saúde e Alegria.

Um dos principais eixos é a UBS da Floresta. Adaptada à realidade amazônica, ela promove atendimento nas comunidades, em um posto equipado e preparado. As unidades são equipadas com recursos para o consultório, farmácia e estruturadas para procedimentos básicos, permitindo a realização de atendimentos médicos, vacinação, pré-natal, acompanhamento de crianças e ações de prevenção.

Sem energia, a UBS convencional possui limitação para o armazenamento de vacinas. Na estrutura idealizada pelo Projeto Saúde e Alegria em parceria com as comunidades e com apoio da Fundação Banco do Brasil, recebe energia solar off-grid/híbrida (24h), internet via satélite, eletrocardiógrafo, autoclave, desfibrilador, nebulizador, concentrador de oxigênio, geladeiras para vacinas, kits de atendimento para ACS e macas.

Reestruturada amplia o acesso à saúde, como também fortalece a atenção básica nos territórios, com ações educativas e acompanhamento contínuo das famílias. A lógica é inverter o fluxo tradicional: em vez de a população ir até o serviço, é o serviço que chega até ela, considerando os ciclos das águas, as distâncias e as especificidades culturais da região.

Outro desafio estrutural enfrentado pelo corredor é o acesso à água potável. Em uma região cercada por rios de grande volume, a falta de água segura para consumo ainda é uma realidade em muitas comunidades, contribuindo para altos índices de doenças de veiculação hídrica. Essa contradição, viver rodeado de água, mas sem poder bebê-la com segurança mobilizou a implantação de sistemas comunitários de abastecimento que são geridos pelas próprias comunidades.

“Se você quiser falar em saúde na Amazônia, você tem que falar em água, água de qualidade. Por incrível que pareça, na maior bacia hidrográfica do mundo, as pessoas ainda adoecem por falta de água segura”, afirma Scannavino.

As soluções incluem captação adequada, reservação em caixas elevadas e tratamento com filtragem e cloração. São tecnologias de baixo custo e fácil manutenção, pensadas para garantir autonomia às comunidades. Os impactos são diretos: redução de doenças, melhoria nas condições de higiene e mais segurança no consumo diário.

No campo da geração de renda, o Corredor de Tecnologias Sociais fortalece iniciativas que integram conservação ambiental e economia local. Em Anã, a meliponicultora (criação de abelhas sem ferrão) vem se consolidando como alternativa produtiva, associando geração de renda à preservação da biodiversidade. A atividade contribui para a polinização e reforça o vínculo das famílias com o território.

O turismo de base comunitária também ganha espaço, com a estruturação de pousadas e restaurantes geridos pelos próprios moradores. Essas iniciativas ampliam as fontes de renda e valorizam a cultura local, criando oportunidades a partir da vivência amazônica.

Outra frente importante é a piscicultura, com a criação de tambaqui em viveiros escavados. A experiência se destaca pela produção de ração dentro da própria comunidade, sem uso de insumos químicos agressivos, reduzindo custos e fortalecendo a autonomia produtiva. O modelo integra conhecimento técnico e práticas locais, apontando caminhos para uma produção mais sustentável.

Em Vista Alegre do Capixauã, também na Resex Tapajós-Arapiuns, tecnologias sociais voltadas ao Turismo de Base Comunitária e produção de mudas para o reflorestamento de áreas degradadas vêm sendo implementadas, ampliando o acesso a direitos básicos.

Na comunidade Carão, onde funciona o Centro Experimental Floresta Ativa, as iniciativas se voltam para a experimentação de sistemas produtivos sustentáveis, formação comunitária e fortalecimento da economia da floresta.

Em Urucureá, o destaque está no artesanato, que se afirma como expressão cultural e alternativa de renda. A valorização do fazer tradicional, aliada a estratégias de organização e comercialização, tem ampliado as possibilidades econômicas das famílias, mantendo viva a identidade local.

 

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